segunda-feira, 16 de novembro de 2009
Queremos mais bandidos
Ocorre que o Ministro Gilmar está fazendo o que pode (se está fazendo também o que não pode, eu não sei) pra não votar. Tem as razões dele lá para não se posicionar nesse caso.
Mas, para que o Ministro Gilmar não vote, é preciso mudar a votação original. Desse modo, busca-se agora fazer com que o calouro Carlos Ayres Britto mude seu voto. Mudar o voto! O homem vota conforme entende que deve votar mas é pressionado a desvotar. E vejam só como é a pressão: a defesa do réu contratou um ex-mestre do Ministro Carlos para convencê-lo a mudar o voto. Defesa é defesa e deve apelar pra tudo quanto é santo, mas como é que os advogados conseguem pressionar o juiz a mudar seu voto?????? A quem interessa que Battisti escape à punição por seus crimes, de resto já determinada pela justiça italiana? Quem somos nós, no Brasil, pra dizer que o crime de Battisti, cometido na Itália e julgado lá, é um "crime comum", um "ato terrorista" ou um "ato político"?
Nossa tradição jurídica é de anistiar criminosos, libertar criminosos, conceder benefícios a criminosos, dar penas brandas a criminosos ou, mais comumente, sequer puni-los.
Agora estamos exportando nossa expertise para o Lácio, como um carma desgraçado que volta para assombrar os juízes italianos.
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
Fora da ordem
- "Menino de 13 anos é detido pela 12ª vez em São Paulo"
- "PMs que liberaram assassinos do coordenador do Afroreggae cumprem prisão disciplinar"
- "Concurso para garis atrai 22 mestres e 45 doutores no Rio"
- "Escola pública de São Paulo cobra de aluno para fazer prova e vende uniforme"
- "No Brasil, Cristo teria que se aliar a Judas, diz Lula"
Os leitores, ouvintes e telespectadores também sabem que isso tudo não é privilégio do Brasil; há gente ruim e desonesta espalhada pelo mundo todo, prejudicando o avanço da Humanidade de modo geral; uma classe de subumanos de índole pérfida, que aproveitam-se do acidente que lhes deu um cérebro inteligente para dar largas à sua natural inumanidade.
Entretanto, alguns países conseguiram em muitos casos refrear o instinto selvagem dessas semi-bestas travestidas de seres humanos; e têm punido aos que insistem em dar vazão a seu lado menos humano e mais bestial.
Alguns exemplos de sucesso são bem conhecidos: Nova York já foi a cidade mais violenta e insegura do mundo, até o dia em que um prefeito decidiu que a tolerância ao crime, qualquer crime, deveria ser zero -- e, a partir daí, a cidade voltou a ser um lugar onde se pode andar pelas ruas ou abrir negócios.
Na Grécia, um promotor sério pôs de joelhos os atrozes ditadores que massacraram seus próprios compatriotas a partir do golpe de estado de 1967.
No Japão, a tradição da honra leva corruptos ao suicídio quando são denunciados ou descobertos e, portanto, desonrados.
Nós brazucas somos provavelmente o povo mais complacente do mundo: os criminosos da ditadura militar foram anistiados e ficaram a salvo de qualquer julgamento justo ou imputação de responsabilidade; acolhemos oficialmente outros genocidas como o general paraguaio Alfredo Stroessner, que morreu feliz, rico e impune em sua mansão no Lago Sul, em Brasília; protegemos bandidos estrangeiros contra as decisões da justiça dos seus respectivos países, como no caso do terrorista italiano Cesare Battisti; e, aqui, gente ruim pode fazer o que lhe der na telha até completar dezoito anos de idade, enquanto aprende como fazer isso depois dos dezoito.
Será que o terror imposto pela ditadura militar no Brasil fez com que nos tornássemos tolerantes com o crime, lenientes com a corrupção, cegos ao absurdo de distorção que é o serviço público no Brasil? Perdemos completamente a capacidade de reagir, por sobre as gordas papadas das "autoridades", contra aquilo tudo que avilta a nossa vida e nos avermelha a cara de indignação?
Quando levanto essas questões, sinto que eu também deveria tomar uma atitude para conquistar terreno às quadrilhas de bestas-feras que tomaram à força o nosso lugar. Mas me sinto impotente. Onde estão os que ainda têm capacidade para indignar-se? Onde estão os que ousariam enfrentar o poder dos fantoches armados e defendidos pelos Monseigneurs de toga?
E, o pior: quem me garante que não sairia, dentre esses possíveis defensores da Humanidade, um novo Robespierre, um novo Fidel Castro, um novo Khomeini?
Insisto em afirmar que a desonestidade e o crime no Brasil têm jeito; muito embora eu não tenha, até agora, conseguido demonstrar essa tese com solidez.
Algo parece estar fora da ordem. Fora da Nova Ordem Mundial.
Algo parece estar defeituoso. Sem uma nova ordem mudial.
terça-feira, 13 de outubro de 2009
Amigo de Si Mesmo
O texto a seguir foi-me enviado por e-mail; trata disso e é atribuído a Martha Medeiros, pensadora e poetisa gaúcha, colunista do jornal Zero Hora, de Porto Alegre. Na Internet, quase tudo que reluz não é ouro, em termos de autoria, mas o texto é bom e vou reproduzi-lo aqui, até pra facilitar a releitura:
Como sempre, nosso bem-estar emocional é alcançado com soluções simples, mas poucos levam isso em conta, já que a simplicidade nunca teve muito cartaz entre os que apreciam uma complicaçãozinha. Acreditando que a vida é mais rica no conflito, acabam dispensando esse pó de pirilimpimpim.
Para ser amigo de si mesmo é preciso estar atento a algumas condições do espírito. A primeira aliada da camaradagem é a humildade. Jamais seremos amigos de nós mesmos se continuarmos a interpretar o papel de Hércules ou de qualquer super-herói invencível. Encare-se no espelho e pergunte: quem eu penso que sou? E chore, porque você é fraco, erra, se engana, explode, faz bobagem. E aí enxugue as lágrimas e perdoe-se, que é o que bons amigos fazem: perdoam.
Ser amigo de si mesmo passa também pelo bom humor. Como ainda há quem não entenda que sem humor não existe chance de sobrevivência? Já martelei muito nesse assunto, então vou usar as palavras de Abrão Slavutsky: “Para atingir a verdade, é preciso superar a seriedade da certeza”. É uma frase genial. O bem-humorado respeita as certezas, mas as transcende. Só assim o sujeito passa a se divertir com o imponderável da vida e a tolerar suas dificuldades.
Amigar-se consigo também passa pelo que muitos chamam de egoísmo, mas será? Se você faz algo de bom para si próprio estará automaticamente fazendo mal para os outros? Ora. Faça o bem para si e acredite: ninguém vai se chatear com isso. Negue-se a participar de coisas em que não acredita ou que simplesmente o aborrecem. Presenteie-se com boa música, bons livros e boas conversas. Não troque sua paz por encenação. Não faça nada que o desagrade só para agradar aos outros. Mas seja gentil e educado, isso reforça laços, está incluído no projeto “ser amigo de si mesmo”.
Por fim, pare de pensar. É o melhor conselho que um amigo pode dar a outro: pare de fazer fantasias, sentir-se perseguido, neurotizar relações, comprar briga por besteira, maximizar pequenas chatices, estender discussões, buscar no passado as justificativas para ser do jeito que é, fazendo a linha “sou rebelde porque o mundo quis assim”. Sem essa. O mundo nem estava prestando atenção em você, acorde. Salve-se dos seus traumas de infância.
Quem não consegue sozinho, deve acudir-se com um terapeuta. Só não pode esquecer: sem amizade por si próprio, nunca haverá progresso possível, como bem escreveu Sêneca cerca de 2.000 anos atrás. Permanecerá enredado em suas próprias angústias e sendo nada menos que seu pior inimigo".
(Martha Medeiros, "Amigo de Si Mesmo")
segunda-feira, 12 de outubro de 2009
Michael
passa a imagem de um Michael muito amado, abençoado e iluminado. Deixa o coração esgarçado por tanta energia, como se tivéssemos feito uma hora de ginástica aeróbica a todo vapor. Faz relembrar a perseguição absurda levada a cabo pelo puritanismo do Novo Mundo; os aproveitadores de plantão e o monte de sanguessugas, agora também órfãos do seu imenso talento e de sua incrível capacidade de gerar sucesso e riqueza.O filme aquece o coração de várias maneiras e deixa tristeza quando vai embora.
Amanhã?
sábado, 26 de setembro de 2009
Tecnologia outra vez
Japão estuda construir central de energia solar no espaço
(clique aqui para ver a reportagem na íntegra)
"O Japão, país que, apesar de não
ter muitos recursos naturais,
ocupa a dianteira no desenvolvimento de tecnologia de ponta, planeja construir
uma central solar espacial para enviar energia à Terra através de raios laser ou
micro-ondas".
Diz a reportagem que o projeto vai estar inteiramente operacional em 2030. Uhu, eu ainda vou ver isso.
P.S.: a foto que ilustra este post é da ISS, feita pela NASA durante uma aproximação do Atlantis.
Tecnologia x relacionamentos
Pior: o chat com som. Atire a primeira pedra quem nunca esqueceu o microfone ligado e acabou enfrentando uma saia justa, mas o exemplo do meu amigo foi tão exemplar (ui) que eu não pude deixar de mencioná-lo neste modesto blog.
Bem: estava eu placidamente a jogar no computador quando...
Amigo:
Skype malditooo
tava falando com uma menina q fico
e tomando coca cola
dai deu uma baita vontade de arrotar
dai pensei vou por no mudo o microfone e mandar ver
foi o q fiz
so escuto ela falando do outro lado
''eiita falta de educaçao''
u.u
quase morro
e a mae dela tava perto
Eu:
essa foi de lascar
Amigo:
se foi
=(
to com vergonha aqui
skype maldito =/
Peço perdão pelas risadas (hahahahaha), mas amigo é, também, pra essas coisas. Acredito, sinceramente, que os nerds programadores do Skype tenham preparado essa pegadinha de propósito. E, a essa altura, provavelmente estão rindo a bandeiras despregadas.
sexta-feira, 25 de setembro de 2009
Direitos Humanos
A sociedade brasileira comporta-se, quanto a isso, como pais que foram absurdamente severos com o primeiro filho e que tentam mitigar o sentimento de culpa sendo absolutamente permissivos com o filho mais novo.
Assim é que aprovamos leis que praticamente absolvem, por antecipação, criminosos reincidentes de todas as idades e, em especial, criminosos que ainda não têm 18 anos de idade. Disso se aproveitam os próprios criminosos que, não bastasse terem na ponta da língua todos os seus direitos, são amparados por outros criminosos que conseguiram obter diploma de advogado ou o cargo de juiz. Outros bandidos, mais ambiciosos, despidos de qualquer qualificação técnica mas com um apoio popular expressivo, sagram-se legisladores, escancarando ainda mais as portas (leia-se brechas) da lei, em proveito próprio e do submundo do crime. Ainda outros bandidos, contratados pelo Estado com o dinheiro do contribuinte para serem policiais, fiscais, etc. facilitam as coisas mediante uma propinazinha qualquer.
Se, apesar de todas essas salvaguardas, o azarado bandido acaba na mão de um cidadão honesto que virou policial, e esse cidadão, indignado com a covardia do estuprador, não resiste à tentação de pelo menos dar-lhe uma bofetada, ainda aparecem as célebres organizações de defesa dos direitos humanos, para defender... o estuprador, lógico.
Aí está: as organizações de defesa dos direitos humanos no Brasil estão-se celebrizando pela defesa de criminosos que, por uma extrema infelicidade, acabam sendo presos -- e é frequente a reclamação de que nunca visitaram uma única vítima de criminosos. Esses grupos de "defesa dos direitos humanos" deviam ir gritar na cara de um policial norte-americano ou passar uns dias numa prisão francesa, pra ver como é que os civilizados tratam os fora-da-lei.
Tais organizações frequentemente têm em suas fileiras aqueles advogados que já citei acima, que conhecem os juízes que citei acima, que se aproveitam das brechas legais criadas pelos legisladores citados, etc., etc. São como os estudantes que a gente vê passar de cara pintada de verde e amarelo, num sete de setembro, gritando, felizes, "1, 2, 3, Fora Sarney", sem saber que o líder deles recebeu uma graninha pra organizar o movimento -- e que o movimento nada tem de popular.
A pena máxima, no Brasil, não importa quão hediondo seja o crime, e nas raras oportunidades em que é punido, o é com no máximo trinta anos de prisão, dos quais se cumpre 1/6, ganha-se progressão para regime semi-aberto, e desaparece-se num indulto de Natal. Bandidos bem pagos pelo contribuinte possuem imunidade parlamentar, quando não o mandato divino que é concedido aos que se tornam juízes. O judiciário constrói todo dia maiores e mais opulentos palácios, compra togas maravilhosas e nem olha para as famílias cujos chefes foram mortos por assaltantes e que amargam um longo processo, à míngua, sem poder pagar os caríssimos advogados do tráfico e sem esperança de qualquer compensação por parte do Estado.
Claro está que nem todos os juízes, parlamentares e policiais são bandidos. Há os bem-intencionados que esbarram na inércia estatal e acabam acomodando-se a meramente cumprir a lei, sem se preocupar com critérios subjetivos como justiça, por exemplo. Mas as notícias nos jornais indicam ser uma parcela pequena desse obscurecido universo.
Ou se veta o acesso dos bandidos aos cargos de juízes, advogados, legisladores e policiais ou nunca haverá segurança, imagine justiça, para o cidadão comum no Brasil.
Papo WYD
TK-CCE: OU EMO SEU BLOG E ATUALIZADO TDS OS DIAS?
The Pymm: nao so quando da na telha ^^
TK-CCE: k me entrevista la q nem vc fez com a kyseisa
The Pymm: boa ideia mas eu nao entrevistei kyseisa ^^
TK-CCE: ahh foi so 1 dialogo?
The Pymm: nao tem nada de kyseisa publicado no meu blog ^^ onde vc viu isso?
TK-CCE: tem s eu vi la emo
The Pymm: ouxe vou olhar
TK-CCE: kkkkk lol
The Pymm: sera q hackearam meu blog?
TK-CCE: oO rss
The Pymm: aaahhhhhhhh kkkkkkkkkkkkkkkkk foi um dialogo no msn kkkkk to doido
TK-CCE: oO
The Pymm: ae gostei da sugestão mas agora to no trabalho nao vai dar
TK-CCE: oks
The Pymm: como ta sua agenda pra hoje a noite?
TK-CCE: q hra vc chega nada vazia
The Pymm: umas 19 h
TK-CCE: oks
The Pymm: bele
TK-CCE: affz parei de jogar por enquanto ta osso o wyd CHATOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO
The Pymm: pior q ta mesmo baniram todo mundo q deixava o wyd emocionante
TK-CCE: POISE
The Pymm: rex300, rosalia, elcomedor, bizunga
TK-CCE: MTO PAIA
The Pymm: quando o pau comia
TK-CCE: A BIZUNGA Q BOTAVA FOGO AI O PAU COMIA rss
The Pymm: kkkk eles tao todos no jogo so q tao na moita nao podem aparecer muito
TK-CCE: pow esse negocio de tds os sv serem aliados e chato d++
The Pymm: coisa de emo o legal sao as guerras vamos fomentar a inimizade entre os povos
TK-CCE: shuashua
The Pymm: ae a entrevista vai ser sobre isso mais tarde bele?
TK-CCE: oba bele
The Pymm: t + ^^
TK-CCE: t+++^^
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
Terapias alternativas
"A polícia alemã prendeu um médico neste domingo depois que duas pessoas morreram e uma entrou em coma em uma terapia em grupo em Berlim. O médico é acusado de prescrever o uso de drogas ilícitas às pessoas do grupo.
As autoridades acreditam que o médico, de 50 anos, conduzia uma misteriosa sessão de terapias em grupo no distrito de Hermsdorf, em Berlim. Ele confessou ter prescrito drogas como heroína, anfetaminas e ecstasy para "expandir a consciência dos seus pacientes".
Dois homens - um de 59 anos e outro de 28 - teriam morrido em uma das sessões no sábado, quando a polícia foi chamada.
Algumas das 12 pessoas que participavam do grupo foram hospitalizadas com suspeita de envenenamento. Uma delas, um homem de 55 anos, está em coma, em situação grave. Todas dizem ter recebido um coquetel de drogas ilícitas pesadas.
O médico alegava que oferecia "ajuda em crises espirituais". A mulher do médico também participava das sessões".
O fato de existirem as ditas terapias "alternativas" em todos os lugares onde há
porralouquice não espanta tanto quanto o outro fato, o de os membros da comunidade bicho-grilo mundial serem absolutamente desprovidos de sentidos básicos de preservação da sua integridade física, mental e espiritual.
Outro dia deu na TV que um conferencista "holístico", contratado para elevar o moral dos funcionários de uma empresa paulista, fê-los andar sobre brasas, objetivando demonstrar o poder da mente sobre a matéria. As impressionantes queimaduras nos pés das infelizes criaturas sequer chamuscaram a reputação do "coach" de vanguarda ou o assombroso número de membros do seu fã-clube.
No afã de levantar recursos financeiros, já pensei em abrir uma igreja, em fazer workshops de regressão, em escrever livros com títulos "místicos" a partir de mitos antigos adaptados ao cotidiano do Século XXI, mas até agora não me equipei o suficiente para reclamar admissão a tão seleto clube.
A gente nasce, digamos, picareta? Ou pega o jeitão, já que o incansável público apanha, paga caro e uiva pedindo mais?
sexta-feira, 18 de setembro de 2009
Harmônica
Lembro de ouvir Beethoven, vibrante, colérico, terrível, na radiola ABC Canário, enquanto olhava sua foto na parede do corredor com aquele cabelo despenteado, a carranca que aprendi a amar. Mozart, Liszt, Dvorak, Handel, Nelson Gonçalves, Chopin e Roberto Carlos moravam na sala de estar. Minha tia tocava música italiana no acordeon. Meu tio dedilhava Dilermando Reis no Di Giorgio lustroso, com cheiro de madeira boa, caprichando nas posições que lhe permitissem fazer com os dedos algum gesto que me divertisse. Desde pequeno diferencio um Del Vecchio de um Giannini só de ouvir tocar.
Numa manhã, dessas manhãs cheias de luz (aaaahhh vocês tinham que ouvir essa) acordei de um sonho feliz, ainda ouvindo meu pai cantar uma de suas canções favoritas:
Sul mare luccica, l’astro d’argento
Placida è l’onda,
Prospero è il vento.
Venite all’agile, barchetta mia,
Santa Lucia, Santa Lucia!
Comentei isso com ele pelo telefone, e rememorei o cheiro metálico do es
tojo revestido internamente de feltro vermelho, do realejo que eu pegava às escondidas quando ele saía, pra tentar tocar... Pois não é que, alguns dias depois, recebi uma caixinha láááá de João Pessoa? E o que tinha dentro?! O próprio. Nem acreditei que ele ainda existisse! Agora o querido instrumento repousa na minha estante de lembranças de casa, perto das fotos dos manos, das novas manas, dos filhos, de mamãe e de papai; meio emudecido, mas feliz de reencontrar-me, velho companheiro de aventuras de infância.
Amor como confetti
Confete
Pedacinho colorido de saudade
Ai, ai, ai, ai,
Ao te ver na fantasia que usei
Confete
Confesso que chorei
Chorei porque lembrei
Do carnaval que passou
Daquela Colombina que comigo brincou
Saudade do amor que se acabou...
De repente fiquei doidim pra ir passar o próximo carnaval com ela, com meu pai, meus irmãos, meu filhote, meus amigos, minha preta.
domingo, 13 de setembro de 2009
Tratado da mutabilidade das impossibilidades
Travou-se então o seguinte diálogo:
Kyseisa diz:
iae pim
beleuza di creuza?
Euni diz:
oi filho
bom dia
tudo beleuza
e tu?
Kyseisa diz:
tudu
passei por media ingles
to di ferias ^^
Euni diz:
eeeeeeeeeeeee
parabens filhoteeeeeee
você é dezzzzzzzzzzzzzzzz
Kyseisa diz:
^^
to vendo o horoscopo aki
Euni diz:
eita
tá bom ou ta ruim?
Kyseisa diz:
ta bom
^^ vo ve o de kalokas
Euni diz:
^^
Kyseisa diz:
o teu agora
"Momento de maior estabilidade e segurança pessoal, e isso tende a fazer com que você sinta que a sua vida está bem assentada e que tudo está funcionado de acordo. A fase é favorável para a sua saúde, e você poderá ainda aproveitar as coisas boas da vida sabendo desfrutá-las e tendo a moderação necessária. Aproxime-se das coisas que você valoriza".
Kyseisa diz:
^^
aproximixi di mim
Fiz as malas e fui pra João Pessoa.
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Eu, consumidor
Depois de tentar inutilmente cancelar meu contrato (aquele, da Promoção 7 Dias Grátis do Catho Online), e de ver o débito programado e não autorizado na minha conta bancária, resolvi protestar em todos os sites possíveis. No Brasil há vários, então saí postando alucinadamente a minha história, engrossando as fileiras das centenas de reclamações existentes na internet sobre o mesmo assunto. Poderia ter ficado aí, como ficaram as referidas centenas. Mas eu sou brigão. Quando vi que o "serviço" 7 dias grátis também estava sendo oferecido pelo Catho em Portugal, nem pensei duas vezes: entrei no site de reclamações do governo português e pus minha denúncia lá. En passant, escrevi também para o Correio da Manhã, jornal de grande penetração em terras lusas. Ato contínuo, pus minha reclamação no Correio Braziliense e mandei um e-mail para o Ministério Público.
Ah, também inseri minha contribuição no verbete "Catho", da Wikipedia. Após uma breve guerra de edições (o pessoal do Catho recusava-se a aceitar minhas edições e as apagava tão logo eu as inseria), acabei conseguindo o apoio dos mediadores e a edição ficou lá. É uma seção intitulada "Catho, PROCON e Ministério Público".
No primeiro dia útil seguinte, recebi um telefonema do Catho informando que, em atenção à minha postagem no Reclame Aqui, estavam cancelando minha assinatura e os débitos indevidamente lançados.
Puxa vida, não poderiam elegantemente ter-me poupado todo o trabalho? Por que não atender ao consumidor quando ele quer ser atendido pacificamente em uma demanda justa?
Alguém faça o favor de explicar-me o raciocínio que leva o fornecedor de bens e serviços a levar o cliente à loucura antes de atender ao seu pedido.
...
Em tempo: pedi e o Banco do Brasil aceitou cancelar o débito resultante da assinatura ("gratuita") feita por Yenny. Mas a pessoa que me telefonou do Catho pra informar sobre o cancelamento da minha assinatura disse que Yenny teria que ligar pra lá pra pedir o cancelamento da assinatura dela, ou eles continuariam enviando o débito pra minha conta. Ligar de novo? Vou ver o que acontece se eu aumentar a pressão. Entre os meus planos está um BO na Polícia Civil e uma reclamação formal no Procon-DF.
sábado, 5 de setembro de 2009
Truque da Catho Online S/C Ltda para levantar recursos financeiros: Promoção 7 dias gratuitos
(Posted using ShareThis)
Pois bem: eis-me aqui com cara de otário, dizendo ao mundo que também caí no golpe da Catho, como caiu o rapaz do link acima. Mas eu caí duas vezes!!
Na primeira vez assinei a Catho por um ano. Paguei religiosamente em dia, postei centenas de currículos para centenas de anúncios, e nunca recebi qualquer resposta. Meu currículo não é tão ruim assim. Somente agora, depois de ver na Internet as dezenas de posts, scraps, reclamações e PROCONS sobre a Catho, é que me caiu a ficha.
Perguntaríeis: "mas cara, por quê você resolveu, assim de repente, pesquisar sobre a Catho na Internet"?
Respondo:
Recentemente, já atuando como consultor, aproveitei a "Promoção 7 Dias Grátis" que aparece na página inicial do site da Catho para buscar novas oportunidades de prestar algum servicinho B2B. A promoção diz que o assinante pode usar o site por 7 dias gratuitamente, desde que opte por um plano de assinatura, para o caso de gostar do serviço (assinatura mensal, trimestral, etc.) e informe o número de conta bancária para eventual débito dos valores desses planos, just in case (com o perdão do trocadilho infame). Ao tentar cancelar, no sexto dia, descobri que já estavam me cobrando a primeira parcela mensal, desde o segundo dia da assinatura. Tentei cancelar o débito no site e não consegui, já que a opção de cancelamento obriga o cliente a pagar uma mensalidade. Liguei pra obter ajuda, mas me disseram que o cancelamento só pode ser feito pelo site.
A atendente disse que não podia cancelar, já que EU havia optado por pagar, confirmando isso em TRÊS TELAS DO SITE (meu queixo caiu: EU fiz isso?) .
Claro que não fiz, e fui enfático. Insisti que queria meu caso solucionado. Ela disse que iria passar pra outra atendente. Lembrei a ela que, pelas regras de call center, ela era obrigada a resolver o assunto sem transferir pra mais ninguém. Ela me disse (juro que ela deve ter morrido de rir enquanto dizia isso) que o serviço de atendimento telefônico do Catho era "CENTRO DE ATENDIMENTO" e não "CALL CENTER", o que a desobrigava de cumprir a lei.
A atendente seguinte brindou-me com um texto que, na visão do Catho, justificava cabalmente a incancelável cobrança. A qualquer pergunta que eu fizesse ou a qualquer argumento que eu apresentasse, ela repetia o script inteiro, palavra por palavra, e não adiantava tentar interrompê-la. Pra finalizar, disse que, se eu não pagasse, iria pro SPC e SERASA.
Fiquei pensando no que fazer com tudo isso.
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P.S.: Se você acha que estou exagerando, pesquise na Internet a expressão "armadilha do Catho 7 dias" ou clique aqui pra ver os resultados do Google.
P.P.S: Aproveite e pesquise a palavra "catho" no Twitter.
domingo, 5 de julho de 2009
Arte Moderna
ora primária pra aprender a fazer garatujas. Mas fui ver assim mesmo, já que não tinha nada melhor pra fazer e a esperança é a última que morre. Pois a tal vernissage espancou minhas esperanças até o nível de UTI. Coisa resistente, a esperança. No tal primeiro andar vimos a apresentação silenciosa de um bailarino-performático aos pulinhos e bailados pela sala, completamente sem simancol. Tinha uma luminária-mosquitéiro por trás de um lençol de chita. Tinha uns quadrinhos feitos de caixinhas vazias de geléia de hotel viradas pelo avesso; uma mulher (de verdade) costurando um enorme manifesto-faixa-de-chita que não entendi o que dizia; um ensaio fotográfico do tipo doméstico, onde apareciam algumas mulheres estáticas e um homem que mudava de traje a cada foto, concluindo por ficar nu, para horror das mulheres até então estáticas; e mais algumas coisas "criativas"que achei melhor não olhar de perto. Temendo ter meu senso crítico abalado se me demorasse no lugar, fugi para o saguão para esperar pela segunda sessão d´" O Beijo". Pra meu azar, no saguão dei de cara com uma instalação composta por duas tíbias verdadeiras de boi (boi tem tíbia?), do tipo carniça, amarradas por arame farpado e pendentes do teto por uma singela correntinha de prender vira-lata, sob a qual havia uma poça de sal grosso. Nem vou citar as demais instalações, porque isso aqui não é blog de horrores.Bem: voltamos a esperar pela segunda sessão d´" O Beijo". Tínhamos duas opções: o calçadão do Conic ou o hall da Dulcina. No hall não deu, pois estava infestado por moças em adolescência permanente, cujos hormônios pareciam impedir que dissessem alguma coisa que não fosse aos gritos. Esperamos do lado de fora, aturando o pessoal do cigarro. Após cerca de uma hora e meia de eternidade foi anunciado o próximo início da segunda sessão, o que espicaçou ainda mais os hormônios das ditas moças: em segundos o status do ambiente saltou de desagradável para risco de agravo à saúde. Enfim, após ter decidido, pela centésima-nonagésima vez, que ia ficar pra ver a peça, descemos para o porão do Conic. No estreito corredor subterrâneo sem janelas e sem ventilação, um ator fumava furiosamente ao redor da fila, enquanto balbuciava em estado de choque um resumo do enredo da peça ("mulher atropelada" e não sei o quê mais). Uma profusão de panfletos semiqueimados no chão formava um cenário digno da Cinelândia depois de uma CowParade fantasma. Realista, fazia a gente imaginar o cheiro de urina e criolina e querer sair dali o mais depressa possível. Complementando o clima, uma luz vermelha fantasmagórica por trás de um biombo iluminava o local, acompanhada de um rangido arrigobarnabístico que saía de alguma caixa de som em algum lugar. Enquanto isso, um sapatão (lésbica é lésbica, mas sapatão é sapatão) adolescente dentro de um grupo atrás de mim fazia questão de perguntar aos coitados dos amigos se eles sabiam o que mais irritava a ela. E, como o grupo não parecia muito preocupado em adivinhar, o sapato ficava repetindo que era tesão reprimido. Senti-me transportado às festas do Piniqueiral promovidas pelo DCE da UFPb em 1980. Tem coisa que, definitivamente, não evolui. Mas, prossigamos no corredor mal-assombrado: pra entrar na sala de exibição tínhamos que assinar um caderno lá, a pedido de uma sorridente hostess. Assinei e me esgueirei pela ante-sala mais kitsch que já vi na vida, por entre um emaranhado de faixas plásticas zebradas de amarelo e preto, dessas usadas pela polícia americana pra fechar locais de homicídio nos filmes. Tenho certeza de que havia um retrato de Kafka, se borrando de rir, em algum lugar. Por fim, eventualmente chegamos à porta da sala de exibição, onde uma outra hostess olhou nossos "convites" (números 2 e 3) e disse que os nossos lugares eram em pé num canto de parede perto da entrada, atrás de umas oito pessoas que já se espremiam ali. De cara notei que não ia caber nem meu pé esquerdo, e fui pra outro lugar qualquer. Isto é, tentei ir, já que a sala, abarrotada de móveis enormes, só comportaria trinta pessoas na imaginação de alguma mente doentia. Dez ficariam quase confortáveis. Quase todo mundo estava de pé na sala minúscula, sem ventilação nem saída de emergência, o resto apinhado em alguns dos monstruosos sofás e poltronas disponíveis, ironicamente numerados.
Caro leitor, se você acha que este post é um trabalho de ficção, vá assistir ao "Beijo", mas não diga que não avisei.
Enfim: pra mim foi demais. Em protesto contra tantas agressões ao bom senso, à arte dramática, ao consumidor, aos olhos, aos pulmões e aos ouvidos, dei meia-volta sem ver a peça e devolvi o ingresso à sorridente hostess. Refiz o caminho do labirinto para a superfície e dei de cara com o também incansavelmente sorridente primeiro host, que me perguntou alegremente se eu tinha gostado do espetáculo. Como o pobre homem não merecia o que eu tinha a dizer, limitei-me a dizer que "não" e fui embora do Dulcina jurando nunca mais voltar.
segunda-feira, 8 de junho de 2009
Um Advir
Ele estava no meio de uma operação conjunta de puxar alguém para fora do corredor de entrada: algo como um cabo-de-guerra sem corda.
Quieto (ou, pelo menos, mais quieto que os outros), zen, A CARA de Victor com a serenidade do pai. Cumprimentei-o: "e aí, sobrinho"?, levando o punho fechado em sua direção. "E aí, tio"? foi a contra-senha, carregada das vibes da família, enquanto batia o cotovelo e o punho contra a minha mão.
sábado, 6 de junho de 2009
Certas canções que ouço
Certas canções que ouço
Cabem tão dentro de mim
Que perguntar carece:
"Como não fui eu que fiz?!"
Certa emoção me alcança
Corta-me a alma sem dor
Certas canções me chegam
Como se fosse o amor
Contos da água e do fogo
Cacos de vida no chão
Cartas do sonho do povo
E o coração do cantor
Vida e mais vida ou ferida,
Chuva, outono ou mar,
Carvão e giz, abrigo,
Gesto molhado no olhar
Calor, que invade, arde, queima
Encoraja, amor
Que invade, arde, carece de cantar
Calor
Que invade, arde, queima
Enconraja, amor
Que invade, arde, carece de cantar...
(Tunai / Milton Nascimento, "Certas Canções"
Medonho
Evidente enxerto de complexo de avestruz + um otimismo que beira a porralouquice. E eu que me vejo tão sério!
HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA
HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA
terça-feira, 28 de abril de 2009
Pelos Santos Óleos
Não se justifique: os amigos não precisam -- e os inimigos não vão mesmo acreditar.Querido Blog, há quanto tempo! Nem reclame do meu sorriso amarelo, pois eu tenho zilhões de justificativas para o fato de havê-lo quase abandonado. Entretanto, não vou apresentar nenhuma, em consideração à nossa longa amizade.
Nesse ínterim, casei! Não se sinta triste pela ausência do convite: o casamento foi muito mais que informal e repleto de particularidades que, por enquanto, constituem o enunciado de uma teoria, em fase de comprovação, e que só funcionam mesmo na minha cabeça. Por falar nisso, algumas teorias anteriores, já comprovadas na prática, foram completamente desobedecidas para que a nova pudesse vingar. O que só prova que o Universo admite a coexistência das mais absurdas contraposições e que pode-se exercer plenamente o direito de voltar atrás.
Nesse ínterim, pela primeira vez, desisti! Ou procuro converncer-me de haver desistido, com argumentos sólidos e lógica insofismável. Com a desistência notei um efeito colateral inesperado: minha eterna busca pela coerência (isso é default, embora seja uma falha quase insuportável) leva-me a desistir de todo o resto. Virei um gato gordo domesticado. Isso demonstra que a virtude que leva alguém a manter uma continuidade em suas ações pode ser uma trava mortal -- seja qual for o lado para que se leve isso. Portanto, eis o meu manifesto: Abaixo a coerência!
Nesse ínterim passei a praticar TaiChi com o Mestre Woo. É meio besta, mas é algo pra fazer e evita que eu caia na preguiça e comece a acordar tarde. O TaiChi começa às seis da manhã (aaaaaaaarrrrrghhh!!!). Eu vou.
Nesse ínterim o Banco do Brasil me rapelou duas vezes, e fiquei sem internet, sem telefone e quase sem poder trabalhar. A imagem da galinha dos ovos de ouro me vem frequentemente quando penso nesse povo.
Virei celestial, saí a contragosto da Mirmidões e voltei com prazer para a Family. Falei com Shel. Vou postar algo nos sites das guildas. (imagino que pouquíssimos leitores irão entender o que eu disse neste parágrafo. Visitem www.wyd.com.br)
A questão do dinheiro continua incomodando, embora o trabalho esteja pra lá de confortável. Com a ajuda de Buda, Yeovah, Allah, Tupã e de todas as manifestações físicas da Consciência Cósmica, vou fechar um contrato bom brevemente, pra parar de me lamentar. Nem eu aguento mais isso.
Querido blog, tô aproveitando uma pausa entre uma coisa e outra coisa pra atualizar as notícias. Em breve poderemos conversar melhor. Abração!
terça-feira, 24 de março de 2009
terça-feira, 17 de fevereiro de 2009
Mail para Dom Pablito
Tenho recebido suas mensagens e morrido de rir com algumas delas, que acabo enviando a outras pessoas queridas. Nesta manhã de terça-feira, faltando uma semana para o carnaval de 2009 Anno Domini, estou sentado diante do meu computador, pensando: "que diabos eu estou fazendo aqui"?
A questão não é lá muito original, e fico imaginando quantas pessoas já se fizeram esta mesmíssima pergunta, em várias fases da vida, em toda a história da Humanidade.
Idade, trabalho, relacionamentos afetivos, e o cara sozinho pra tomar as decisões certas. Provavelmente não acertei nem 20% delas até hoje. Por enquanto estou (talvez injustificadamente) feliz, embora sinta falta de algumas coisas e de algumas pessoas, sonhos que não vingaram e sonhos ainda por vingar, velhos e novos. Também estou preocupado. E agora bateu a fome.
Foi bom falar com você. Espero que esteja bem, e que a maior parte das suas decisões tenham-se provado acertadas, ou pelo menos aquelas essenciais. Até onde eu vejo, parece que sim. Eis uma das alegrias da vida.
Dê meu beijo fraterno na sua querida esposa e um afago na filhota. Para você um abraço do amigo de sempre
Euni
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
Salada Quarta-Feira
- 1 folha de alface americana
- 1 folha de alface roxa
- 1 folha de alface comum
- 1 folha grossa de presunto cozido Sadia
- 50 g de queijo gorgonzola (eu só tinha Campolindo, vai Campolindo mesmo)
- queijo parmesão ralado
- maionese
- molho de limão
- mostarda
- mel
- molho rosé
- catchup (ora bolas, por quê não?)
- 2 colheres de chá de geléia de goiaba
- 50 g de penne com ovos
Cozinhe o penne com alho, sal e azeite. Separadamente, pique a alface e o presunto e misture-os bem aos outros ingredientes, acrescentando azeite. Quando o penne estiver al dente, misture tudo e sirva num prato de porcelana grande e discretamente decorado. Acompanhe com um pouco (eu disse um pouco!!) de vinho branco Monbazillac 2005.
Bom apetite! : )
Não esqueça de voltar e me dizer como foi a sua experiência. A minha foi transcendental. Até lembrei de agradecer ao Grande Arquiteto do Universo pelo mimo feito ao corpo e ao espírito.
terça-feira, 30 de dezembro de 2008
Poder Público: Autoridade e Responsabilidade
O servidor público, via de regra, é um sujeito que ganha muito melhor que a média da população brasileira. Pode fazer greve sem ser punido ou demitido. Variações da economia não obstaculam seus seguidos aumentos salariais. Alguns têm também casa (boa), comida (boa), carro (caro), festas (de arromba) e roupa (de grife) lavada, tudo pago pelo contribuinte. Em suma, não partilham da maior parte dos motivos de stress que atormentam os não-servidores. E como é, via de regra, que os servidores públicos tratam o interesse do contribuinte, para não mencionar o tratamento dispensado ao próprio contribuinte? (esta pergunta é meramente retórica. Não se dê ao trabalho de responder.)
Um resultado dessa distorção está expresso no excelente texto de Eliane Cantanhêde, publicado em seu blog e na Folha Online, que reproduzo abaixo.
11/12/2008
O buraco negro é outro
O relatório oficial da Aeronáutica sobre o acidente entre o jato Legacy e o Boeing da Gol, que matou 154 pessoas em 29 de setembro de 2006, inocentou completamente o sistema de radares e de equipamentos do controle aéreo brasileiro. Mas condenou a operação desse sistema. "Buraco negro" nos céus brasileiros, como acusavam os controladores em autodefesa, não há. Mas "buraco negro" no trabalho das pessoas há e muito.
Pelo relatório, que também acusa os pilotos norte-americanos do Legacy de despreparo para voar num jato novo e nos céus brasileiros, o nosso sistema de tráfego aéreo é "deficiente de coordenação" e tem "escassez de pessoal". Esses são bons motivos, mas não os únicos, para explicar a verdadeira lambança dos controladores de vôo naquele dia fatídico.
Um jovem de Brasília nem sequer se deu ao trabalho de ler o plano de vôo do Legacy e passou a informação de qualquer jeito. Um maduro e tarimbado de São José dos Campos (SP) sabia que o plano de vôo previa três altitudes, mas deu de ombros e repassou uma só, como recebera de Brasília, para os pilotos. E ainda fez um "link" entre uma só e o destino final do Brasil, o aeroporto Eduardo Gomes, em Manaus. Os pilotos simplesmente trocaram o plano do papel pelo plano autorizado e foram em frente sempre a 37 mil pés. Durante bom tempo, na contramão!
Quando passaram por Brasília, onde deveriam mudar a altitude na primeira vez, não o fizeram. O controlador que deveria ver não viu. E o pior: outro controlador deveria ter mudado a freqüência de rádio, já que o Legacy mudara o "setor", do sul para o norte. Não fez. Não cumpriu sua obrigação.
Conclusão: além de não corrigirem a altitude na hora certa, os controladores também não tiveram como corrigir depois porque inviabilizaram a comunicação via rádio com a aeronave, que passou a ser um míssil perdido no ar.
Para completar, os pilotos não tinham feito o dever de casa e tiraram a atenção do vôo para fazer algo básico: calcular o peso do aparelho no aeroporto de Manaus, com base na fuselagem, nos ocupantes e no combustível. Enquanto um fazia contas no laptop, o outro digitou dois ou mais números, por mais de 20 segundos, numa "caixinha" que acomoda o transponder e o back-up de outros dados --como o de combustível.
Na tentativa de apurar o nível de combustível, eles acabaram botando o transponder em "stand-by", incapaz de detectar a vinda do Boeing em sentido contrário e, portanto, de acionar o TCAS, o sistema que alerta os pilotos do perigo, por meios visuais e sonoros, e indica a manobra evasiva necessária.
Ainda por cima, o jato viajava em regime especial, o RVSM, que permite uma distância menor entre aeronaves no ar. Em qualquer suspeita de perigo, o procedimento imediato é cancelar o RVSM e aumentar a distância para os padrões tradicionais e mais prudentes. Mas o controlador de Manaus, que "recebeu" o Legacy do Cindacta (Brasília), quando ele ultrapassou a área Nabol do mapa aeronáutico, simplesmente não fez essa recomendação.
Sem rádio, sem transponder, sem diligência, sem preparo e na contramão... bem, deu no que deu.
Com a investigação concluída, dois anos depois, inclusive com peritos norte-americanos e canadenses, todo o acidente fica unicamente nas mãos da Justiça. A palavra agora é com ela. Enquanto a gente reza para que os controladores estejam mais espertos e mais bem preparados e não haja pilotos estrangeiros voando de qualquer jeito por aí. Aqui não é a casa da mãe Joana.
Afinal, Natal, Ano Novo, férias, Carnaval, tudo está chegando. Segurança é bom e a gente gosta.
Eliane Cantanhêde é colunista da Folha, desde 1997, e comenta governos, política interna e externa, defesa, área social e comportamento. Foi colunista do Jornal do Brasil e do Estado de S. Paulo, além de diretora de redação das sucursais de O Globo, Gazeta Mercantil e da própria Folha em Brasília.E-mail: elianec@uol.com.br
Leia as colunas anteriores
quinta-feira, 25 de dezembro de 2008
Aqui, ali e em todo lugar
To lead a better life I need my love to be here...
Here, making each day of the year
Changing my life with a wave of her hand
Nobody can deny that there's something there
There, running my hands through her hair
Both of us thinking how good it can be
Someone is speaking but she doesn't know he's there
I want her everywhere and if she's beside me
I know I need never care
But to love her is to need her everywhere
Knowing that love is to share
Each one believing that love never dies
Watching her eyes and hoping I'm always there
I want her everywhere and if she's beside me
I know I need never care
But to love her is to need her everywhere
Knowing that love is to share
Each one believing that love never dies
Watching her eyes and hoping I'm always there
To be there and everywhere
Here, there and everywhere
(The Beatles, "Here, There and Everywhere")
quarta-feira, 26 de novembro de 2008
Você sabe que está na Bahia quando...
O restaurante do hotel só abre para o café da manhã às 7:30h.- A sala de ginástica do hotel só abre às 9:00h.
- Deus distribui milagres às centenas por minuto, enquanto automóveis, motocicletas, bicicletas e pedestres transitam velozmente pelo caos absoluto das ruas.
- Apesar da sua irritação, os funcionários do hotel driblam normas internas pra tentar extrair um sorriso da sua cara mal-humorada.
- Crianças lhe cumprimentam sorrindo e adolescentes prestam, sem medo, a informação que você lhes pediu.
sábado, 22 de novembro de 2008
Classificados
O sonho deve ter quatro quartos, tração nas quatro rodas, quatro filhos, quatro horas de carinho todos os dias e som quadrifônico, tapetes e almofadas na sala de música.
Deve ter uma figura central que reúna tudo isso em sua alma, numa etapa preliminar de construção do que será o futuro. Que tenha nos olhos a luz das galáxias, e que saiba fazer mingau de Maizena.
Pago com pacotes de carinho extasiante no corpo e na alma, tigelas de afeto, caixas e caixas de respeito, toneladas de dedicação, cargas de atenção, contêineres de lealdade, carretas de amizade, paletes de proteção, caminhões de fidelidade, vagões de apoio, armazéns de serenidade, barcaças de tolerância e oceanos de um amor que cresce todo dia a ponto de se perder de vista.
O futuro
Gilberto Dimenstein, in "Obama e a ex-futura prostituta de Brasília", Pensata, Folha Online, 15/11/2008.
quarta-feira, 12 de novembro de 2008
Primavera de novo
Redescubro a força da minha ligação e imagino como é que algo tão forte pode ser unilateral. Converso antigas conversas enquanto me desloco pela primavera de Brasília. Ofereço flores, luz, cintilações de chuva e dourados céus de chumbo, querendo que tudo isso fosse teu. Lembro que, se estivesses aqui, sentirias frio.
Claro que tudo tem suas compensações: Victor voltou a telefonar pra mim : ).
Entretanto, não estabeleci nenhuma meta ainda, nada pelo que viver, mesmo após dois arrastados anos de deserto. Moisés deve ter rido até cair da Direita de Deus Pai agora.
Queria tanto que hoje se definisse o meu destino, um bom destino.
segunda-feira, 3 de novembro de 2008
Confiança
Tycho-1, órbita 19 de Syrrah, constelação de Andrômeda
Sozinhos no meio do deserto inundado de luz, eu e Bam, em forma simbiótica, esperamos.

Uma doce voz nos chama a atenção no alto da colina onde fica o bunker: Bam abre um enorme sorriso ao reconhecer a armadura amarela da sua mãe, que acena lá de cima com uma serenidade que não é sua. Instantaneamente interrompo as cambalhotas de alegria de Bam, gritando na sua mente: “Cuidado! Não é ela!”
Bam para, estarrecido: “É ela, sim, papai. Veja a armadura!” Eu perco o contato. Mas, enquanto Bam escala o morrinho, o chão na face esquerda da colina produz pequenos estalidos e começa a rachar, e ele acha estranho que
sua mãe ative uma armadilha de aproximação para ele. E para, olhando para o local das nanogarras e para o sorriso sereno de sua mãe por trás da máscara. Resolve descer, lentamente, de costas. Retomo o contato.Verificamos que há uma porta de acesso ao bunker, no sopé da colina, e pedimos a ela que abra. A porta emite um clique e abre, mas não há ninguém do outro lado. Do corredor disparamos imediatamente para fora em fuga veloz, Bam no controle.
O local exterior é o Jardim das Mimosoideae, e corremos rua abaixo até encontrarmos um portão aberto. Pela lateral da casa atingimos os fundos, onde um garotinho brinca enquanto sua mãe observa pela janela. Surpresa com a nossa presença, levanta as sobrancelhas, mas a tranqüilizamos: somos Bam e seu pai, vizinhos da casa logo acima. Pedimos permissão para nos escondermos enquanto ligamos para o nosso pai. Ela faz que sim com a cabeça. Colamos no chão e ficamos observando a rua pela fresta do portão, mas ninguém nos seguiu. Dou o comando de voz no telefone: “Pai”. Nesse momento, a dona da casa diz: “Neer”; e eu vejo meu mano chegar ao início da rua na DW4500. Interrompo a
ligação pra o Pai e ligo para ele, mas ele não atende. “Barulho da moto, capacete e roupa de couro”, pensei eu. Levanto e grito para ele, deixando a forma simbiótica, mas ele só me vê quando já está estacionando a moto na entrada da nossa casa. Chamo-o urgentemente, e ele desce da moto juntamente com Marg e Boosh (que se apresenta num formato novo) e os três correm na nossa direção.Relato o que aconteceu, e nos encaminhamos juntos para a casa. Aviso a Bam, que está com os olhos arregalados: “Não é ela”. E ele argumenta: “Mas, papai, é ela, você não viu”? E eu respondo: “Não é ela, filho”. Ele fica quieto e se protege atrás de nós.
Abrimos a porta da frente e entramos. Kalii está nua na sala, andando lentamente de quatro, de forma coleante, com um ar de sensualidade no rosto, que não abandona quando entramos. Aquele olhar vago não combina com sensualidade e nada daquilo combina com o momento, então a imobilizo no chão. Busco sufocá-la com o saco plástico que está em sua cabeça, e ela só percebe
a falta de oxigênio muito tempo depois que uma pessoa comum já teria desmaiado. Busco as cicatrizes da cirurgia nos seios, e não as vejo. A pele parece a dela, tem o mesmo brilho, mas é mais clara e muito mais lisa, com microescamas, como o tecido das roupas de natação de última geração.Onde está Bam? Preciso protegê-lo. Essas pessoas são realmente meus irmãos? Como confiar em alguém, num mundo em que é tão fácil reproduzir outra pessoa ou simplesmente formar uma simbiose com alguém? Em quem confiar? Como testar as pessoas de forma eficiente?
sexta-feira, 10 de outubro de 2008
quarta-feira, 24 de setembro de 2008
Delicada
Fora do meu Lar
Ficar solteiro é o caralho, eu gosto mesmo é de ser dois, três, mil, dentro da minha casa transformada em lar, em família, em doçura de vida em conjunto, refratando-me em duzentas mil cores, em milhões de suaves sons, na tranquilidade de me dividir.
Pra que eu sirvo, só?
Esta manhã vai ser foda.
terça-feira, 23 de setembro de 2008
Sweet Dreams
Who am I to disagree?
I travel the world and seven seas
Everybody is looking for something
(Annie Lennox, "Sweet Dreams")
quinta-feira, 18 de setembro de 2008
Segredo
Pergunta: Isso é algum tipo de receio? De mim??? Por quê???
Pergunta: o que eu tenho a ver, agora, com a vida dela? (Opa, isso não é pergunta que eu faça, apenas uma previsão da pergunta mais natural do mundo, e que ser-me-ia feita muito naturalmente.) Nada. Eu só fiquei constrangido por haver falado com os esposos por esses dias e não os haver felicitado, o que poderia passar por uma deselegância da qual eu sou incapaz. Credo, fiquei alérgico a mal-entendidos, má interpretação, má fé obscura e má vontade.
Liguei e parabenizei, mas não como eu teria gostado, porque o meu mal-estar não me deixou dizer o que eu queria ter dito, de verdade: que eu desejo toda a felicidade e que as coisas boas suplantem, suplantem, suplantem, as coisas que não forem as coisas boas no novo casamento. Ela provavelmente não iria acreditar, mas eu teria dito exatamente isso. Eu sou assim. Não é segredo.
quarta-feira, 17 de setembro de 2008
Tu + 10
Distraído, perco a entrada de casa e sou forçado a tomar o retorno pouco usado pra voltar. Como sempre, está escuro e me preocupo se estou fazendo algo errado. Aproveito e troco o dinheiro pra ti, e me deves R$ 55.
Ao estacionar, vejo que vocês haviam descido do carro antes mesmo que eu fizesse o retorno e, no portão da frente, meus 55 estão postos delicadamente num canto da passagem, onde eu possa vê-los.
Tua oferenda aos anjos está sobre o muro largo; cuidadosamente recolho a vela apagada pela chuva suave, juntamente com o meu pente rosa que esqueceste junto.
O filhote, ardilosamente escondido na penumbra da cadeira da varanda, me surpreende com uma risada boa, enquanto queixa-se de que dá uma preguiça danada enfrentar as dificuldades de entrar pela porta, esperando que eu o pegue no colo e o ponha na cama.
Sais de casa rindo ao meu encontro, enquanto te admoestas por haver esquecido a oferenda e avisas ao filhote que, por isso, terão de fazer a oferenda de novo, em redenção.
Vestes somente a tua pele luminosa no corpo de fada, cintilando no ar à luz das estrelas órfãs da lua e, se não me amas, tampouco me desprezas; e recebes sem desdém o meu carinho, meus beijos e até me tomas como porto seguro onde podes dizer, como se isso fosse algo ruim, que hoje és Tu +10, sabendo que eu vou dizer que estás, por isso mesmo, ainda mais linda!
Imagina, até te agradeço por tudo, numa síntese da cerimônia das pétalas, que ensaiei no dia D mas que não pudemos realizar...
Oh! Meu grande bem
Pudesse eu ver a estrada
Pudesse eu ter
A rota certa que levasse até
Dentro de ti
Oh! meu grande bem
Só vejo pistas falsas
É sempre assim
Cada picada aberta me tem mais
Fechado em mim
És um luar
Ao mesmo tempo luz e mistério
Como encontrar
A chave desse teu riso sério
Doçura de luz
Amargo e sombra escura
Procuro em vão
Banhar-me em ti
E poder decifrar teu coração
És um luar
Ao mesmo tempo luz e mistério
Como encontrar
A chave desse teu riso sério
Oh grande mistério, meu bem, doce luz
Abrir as portas desse império teu
E ser feliz
(Beto Guedes e Caetano Veloso, "Luz e Mistério")
domingo, 14 de setembro de 2008
Nothing Gold Can Stay
Her hardest hue to hold.
Her early leaf’s a flower;
But only so an hour.
Then leaf subsides to leaf,
So Eden sank to grief,
So dawn goes down to day
Nothing gold can stay.
- Robert Frost, "Nothing Gold Can Stay".
sexta-feira, 5 de setembro de 2008
Em defesa do relativismo suave
Quem escreve é João Pereira Coutinho, colunista da Folha. Degustem.
Em defesa do relativismo suave
O problema do mundo é não ser um pouco mais relativista. Eu sei, eu sei: o relativismo é mau, dizem, porque a idéia de que os valores dependem de meras escolhas individuais, sem nenhuma justificação externa ou racional, é uma fraqueza epistemológica e ética da maior gravidade. Fato. Mas eu falo de um relativismo ligeiro, um relativismo banal, o relativismo das coisas menores. Como um tempero que se coloca sobre o prato da vida, só para dar algum sabor mortal a tudo o que fazemos e sentimos. É o relativismo suave que ensina que nada tem uma imporância tão absolutamente esmagadora quando o fim é certo e o esquecimento também.
Lembro tudo isso com notícias que leio na imprensa portuguesa. Nos últimos dias, soube que 32 mulheres foram assassinadas em 2008 por seus namorados ou maridos. Existem cenários macabros de homens que apontam uma arma e disparam sem pestanejar em plena via pública. O resto é igualmente macabro: estrangulamentos, espancamentos, envenenamentos. O diabo a quatro. Motivos? Passionais, sempre passionais: o homem descobre, ou suspeita, que a mulher não é casta. E num gesto de loucura, comete a loucura.
E então recordo uma conversa que tive uns anos atrás com um amigo, em São Paulo, e o relato que ele me fazia de um conhecido jornalista que entrara em cenário idêntico: descobrira que a namorada, mais jovem, se afastara dele para procurar uma "nova vida", como se diz nas telenovelas; e ele, de cabeça perdida, incapaz de aceitar a rejeição, pegou na arma e fez o que fez. Arruinou a vida, a carreira, os amigos, a família, e etc. etc. etc.
Ouvi a história e perguntei aos meus pobres neurónios se eu seria capaz disso: amar uma mulher ao ponto de a matar por despeito. E a resposta, toc toc toc, é negativa. Tudo por causa de meu relativismo suave, que me acompanha dia após dia como um animal de estimação. Sim, tenho minhas fúrias, como qualquer pessoa racional. E existem momentos de um desespero tão profundo, e tão medonho, que chorar é um luxo. Mas mesmo quando o demónio se intromete na pacatez dos meus dias, existe um lado de mim que ri dele. Como se o espírito deixasse o corpo e, planando sobre a carcaça, contemplasse o absurdo da minha condição. O absurdo da condição humana. E uma voz invisível segreda-me ao ouvido: será que vale a pena, companheiro? Será que vale a pena tudo isso quando tu estarás morto no futuro médio? E, depois da voz, vem a imagem: como num filme de Bergman, eu, velho e morto, em caixão aberto.
O relativismo liberta-nos para fazer o mal, como acreditava Dostoiévski? Não creio. Em doses temperadas, o relativismo é um convite para não fazermos o mal. Ele esvazia o nosso patético ego como uma agulha que fura o balão de uma criança. E ele é sobretudo útil em matéria de amor: somos amados, magoados, atraiçoados. Acreditamos que, depois do abandono, teremos uma dor inultrapassável, que se vai prolongar pelos séculos seguintes.
Mas a verdade é bem mais triste e, paradoxalmente, bem mais feliz. Tudo passa. A dor vai diluindo-se em tristezas menores, que ficam como o pó esquecido nos cantos da casa. E certo dia descobrimos que o tempo cobriu tudo com invisíveis mortalhas; e o passado é o porto de onde a nossa embarcação já se afastou há muito. Vemo-lo ao longe, por entre a neblina. Mas não há regresso.
Desesperado leitor: se achas que a dor de hoje te autoriza a tudo, lembra-te que és nada e que a tua vida será nada. E festeja essa certeza com a alegria sincera dos náufragos resgatados.
João Pereira Coutinho, 32, é colunista da Folha. Reuniu seus artigos para o Brasil no livro "Avenida Paulista" (Ed. Quasi), publicado em Portugal, onde vive. Escreve quinzenalmente, às segundas-feiras, para a Folha Online.E-mail: jpcoutinho@folha.com.br Site: http://www.jpcoutinho.com
terça-feira, 26 de agosto de 2008
Ups
Tive dois bebês. Não fiz quase nada direito da primeira vez, mas me esforcei muito e, se pudesse, refaria tudo aquilo onde errei. Juro. Da segunda vez eu já era senhor do meu destino e dono de castelo. Minha mulher era a coisa mais importante do mundo, tanto quanto obter reconhecimento pelo meu trabalho. Brinquei de carrinho na barrigona, fiz novamente todas as preces e orei por todas as bênçãos. E elas vieram!
É bastante triste não os ter comigo. Mas as lembranças são verdadeiros sonhos. Eu devia ser mãe. Nunca nunca nunca nunca nunca nunca os separariam de mim.
terça-feira, 15 de julho de 2008
No aeroporto
Se bem que deixei tudo para a última hora: arrumei a bagagem na véspera, fui comprar o presente do meu filhote na véspera, documentação na véspera... uma parte de mim nem quer ir, e entendo bem por quê.
Mas vou!
Vou encerrar isso tudo pra começar de novo. Os degraus estão mais altos, as possibilidades de escolha diminuem, mas agora tenho asas (espero) e vou voar com elas.
. . . . . . . . . .
Hoje faz um frio infernal (hahahaha) em Brasília. A mesa de mármore, congelada, torna um sacrifício usar o mousezinho (tenho rixa com o tal do "synaptics pointing device", o mouse do laptop, que, de tão besta, nem tem nome, é "device"). A temperatura da corrente de ar que sopra da pista de pouso deve estar muito perto do zero, porque, a essa altura, minhas mãos estão congelando e a melhor maneira de evitar a paralisia é continuar escrevendo...
. . . . . . . . . .
Fico pensando nas diversas reações que a minha chegada trará. A melhor de todas será a do meu filhote, que, sem surpresas, ficará, sim, muito feliz em me ver. Os abraços dos manos, a grande satisfação deles, o abraço saudoso da minha mamãe tão querida e que nem curti direito nesses últimos 27 anos... O abraço do meu pai, meu pai.
Mas.
Tem um divórcio no meio do céu. Oro para que tudo dê certo, tudo se resolva bem, tudo fique bem, minha dor fique num canto e morra, ela fique bem, eu fique bem, Vic fique bem.
God willing, vai passar e, dizem os oráculos, eu vou ser feliz... é muito importante, para a sobrevivência dos oráculos, que eles digam coisas assim; e também, irra, é bom ouvir. O que seria da vida sem esperança? Que vivam os oráculos e, como diria Zé Xico Barbixa Magno, venha o que tiver de vir -- desde que seja bom, af!
Jampa, lá vou eu.
sábado, 12 de julho de 2008
Más Allá
Cuando quieres de verdad
Cuando brindas perdon
En lugar de rencor
Hay paz en tu corazón
Cuando sientes compasion
Del amigo y su dolor
Cuando miras la estrella
Que oculta la niebla
Hay paz en tu corazón
Mas alla del rencor
De las lagrimas y el dolor
Brilla la luz del amor
Dentro de cada corazón
Ilusión, navidad
Pon tus suenos a volar
Siembra paz
Brida amor
Que el mundo entero pide mas
Cuando brota una oracion
Cuando aceptas el error
Cuando encuentras lugar
Para la libertad
Hay una sonrisa mas
Cuando llega la razon
Y se va la incomprension
Cuando quieres luchar
Por un ideal
Hay una sonrisa mas
Hay un rayo de sol
A traves del cristal
Hay un mundo mejor
Cuando aprendes a amar
Mas alla del rencor
De las lagrimas y el dolor
Brilla la luz del amor
Dentro de cada corazón
Ilusión, navidad
Pon tus suenos a volar
Siembra paz
Brida amor
Que el mundo entero pide mas
Cuando alejas el temor
Y prodigas tu amistad
Cuando a un mismo cantar
Has unido tu voz
Hay paz en tu corazón
Cuando buscas con ardor
Y descubres tu verdad
Cuando quieres forjas
Un manana mejor
Hay paz en tu corazón
Mas alla del rencor
De las lagrimas y el dolor
Brilla la luz del amor
Dentro de cada corazón
Ilusión, navidad
Pon tus suenos a volar
Siembra paz
Brida amor
Que el mundo entero pide mas
sexta-feira, 11 de julho de 2008
Phone chat
- Yes?
- It's Norman, how are you?
- Oh, hi, Norm! How are you?
- Fine! Look, I was checking some old papers and ran into one with your phone number on it. I hope you don't mind I'm calling.
- No, not at all!
- Look, I have been thinking about you over the last few days and thought that maybe we could meet tonight and talk a little?
- I - uh - I do not understand... is there any special reason for that?
- Well, the special reason would be you! (just thinking: "OMG I can't believe I just said that")
- ... well, heh, I have a previous arrangement for tonight, but maybe some other time... I will be traveling next Thursday, but...
- I will be traveling by Tuesday too, so maybe we could talk sometime afterwards. Maybe I could call you again when I come back...
- OK, that's fine. See you!
- See you!
Melhor Vinho
segunda-feira, 7 de julho de 2008
A Cor do Amor
Minha casa está repleta de amor. Já houve tanto amor aqui dentro que o lugar terá boas vibrações por muitos e muitos anos, sem reabastecimento. Os momentos que não foram de amor foram todos apagados e ficou somente aquela cor dourada das coisas boas.É aqui que eu vivo.
Este é o meu lar.
Minha casa sente saudades, como eu, da alegria de outros tempos. Mas está cheia de amor, e o amor vai fazer a alegria voltar.
Começar
Aninha foi o resultado mágico desse não-querer desistir; a consolidação da poeira mística da minha vontade de sobreviver, de me reharmonizar e ficar feliz por mais tempo. Agradeço a ela e à sublime mecânica do Universo pelos maravilhosos presentes recebidos: alegria, afeto, afeição, carinho, ternura, comunhão, dedicação, cuidados, e até amor! Não lhe pude dar muito em troca e fico triste com isso. Deus lhe pague e lhe acompanhe e lhe conduza em Suas mãos!
Meu caminho agora é meu e devo assumir essa responsabilidade -- será a minha primeira vez? Eu já fiz isso muitas vezes antes, quando tinha a vida toda pela frente. Depois do fim dos meus sonhos, e agora que cruzo a fronteira entre chegar e ir embora, a responsabilidade é maior e o caminho está solitário.
O que vou escolher? Como vou viver? Como arrumar tudo isso? Como começar com o que tenho?
Vamos ver. Tenho o bastante para começar. Tenho filhos e pais e irmãos e talvez amigos que dependem de um gesto meu, e a responsabilidade por eles me mantém de pé. Superar a tristeza, vai dar certo. Força!
quarta-feira, 2 de julho de 2008
Pacto de Vida
Sem comprender por que a dor, a dor
Ter de suportar viver a dor, a dor
E sem merecer a dor, a dor
Se é esse o meu destino, quem é o algoz que o traçou
Quem me contaminou
Quem me doou a dor
Homem não existe para ser só animal
A sua história é mais que corporal
Abre o sentido para ter a liberdade
Com todo mundo que é seu igual
e solidário
Pensará...
Amará...
Sonhará...
Saberá...
Que a felicidade da cidade não tem que o mato matar
Aí a dor vai nos unir
O fim da dor começa é assim
É o filho que não para de crescer
A fruta que vai madurar
Aquela mão, aquela paz, morena, é aquele olhar
Que é sempre verde, verdejar
É aquele gesto humano,
É aquela voz humana,
É aquele amor humano, que chega e diz que vai ficar.
quinta-feira, 26 de junho de 2008
Lembrando-me de mim
“Hoje acordei com saudades
De voar na imensidão de mim mesma
E entre meus guardados,
Procurei minhas asas
- houve um tempo em que voava -
E me perdia numa estranha alegria
Escutando o vento
Agora outra vez
Pelo céu quero voar
E, por sobre a muralha desta vida,
Construir meu momento.
Sem medo,
Deixar-me envolver na mais doce loucura
Lançar-me nesse vazio,
E absorver o silêncio profundo e vasto
Que me dá todas as respostas
Hoje quero voar
Libertar o coração das amarras,
Deixá-lo livre
Para desvendar os horizontes
Viver o sonho mais sonhado.
E, num ato encantado,
dormir no coloda lua.”
Atravessando os meus temporais
"Andei pra chegar tão longe
Daqui de longe eu olhei pra trás
E foi como ver distante
Eu atravessando os meus temporais
Sonhei muito diferente
Eu bati de frente, corri atrás
E foi como se eu soubesse
Inverter o tempo e arriscar bem mais
Andei pra chegar mais longe
E de lá de longe me ver feliz"
Lenine
terça-feira, 17 de junho de 2008
How Can I Go On
When all the salt is taken from the sea
I stand dethroned, I'm naked and I bleed
But when your finger points so savagely
Is anybody there to believe in me
To hear my plea and take care of me?
How can I go on, from day to day
Who can make me strong in every way
Where can I be safe, where can I belong
In this great big world of sadness?
How can I forget those beautiful dreams that we shared
They're lost and they're nowhere to be found
How can I go on?
Sometimes I seem to tremble in the dark, I cannot see
When people frighten me
I try to hide myself so far from the crowd
Is anybody there to comfort me
Lord, take care of me
How can I go on
From day to day
Who can make me strong
In every way
Where can I be safe
Where can I belong
In this great big world of sadness
How can I forget
Those beautiful dreams that we shared
They're lost and they're nowhere to be found
How can I go on?
sexta-feira, 6 de junho de 2008
Pra acalmar
e esperneio e grito e me debato tanto
que o meu corpo, atônito, se locomove
dança, corre, caminha
arruma a casa e trabalha e dorme
pra apagar o fogo que o queima de dentro sem poder sair!
Eu quero a vida, a liberdade, o amor, a alegria
de que o meu corpo desfruta às vezes
e de quando em vez
eu só queria
um dia
dançar, correr, caminhar
arrumar a casa e trabalhar e dormir
como ele faz
e deixá-lo fazer tudo isso
em paz.
sábado, 17 de maio de 2008
A Ilha
Ah! Quem me dera ir-me contigo agora
A um horizonte firme -- comum, embora!
Ah ! Quem me dera amar-te sem mais ciúmes
De alguém em algum lugar que nem presumes!...
Ah! Quem me dera ver-te sempre ao meu lado
Sem precisar dizer-te, jamais: "cuidado"!
Ah! Quem me dera ter-te, como um lugar
Plantado num chão verde para eu morar-te!
Ah! Quem me dera ter-te,
Morar-te até morrer-te.
(Vinicius de Moraes, "O Mais-que-Perfeito")
Como não dá pra simplesmente desplugar e ainda há agravantes como o karma, depois que o mar secar e você perceber que não existe ilha e mar, somente ilha, provavelmente a melhor coisa a fazer é procurar mais amor. Aí começa o perigo: há gradações de amor e, pra piorar, há também quantidade! Claro que um amor dos bons suplanta todo o resto e faz desaparecerem mar e ilha, e tudo se torna amor. Mas isso já é um absurdo e um excesso, que todos nós já provamos (azar de quem não provou, porque é bom!), mas do qual não queremos uma segunda dose. Ah, ok, tá bom, queremos sim.
Voltando ao perigo: eu acho que nenhum amor começa em sua plenitude. Vai crescendo. E é muito bom ter paciência quando for buscá-lo de novo, porque dificilmente o novo amor vai ter de imediato o mesmo sabor, a mesma abrangência e causar o mesmo pulsar, no corpo todo e na mente, que aquele outro, excessivo (bah), causava.
Em suma: nada de estragar o novo amor (seja lá a que for!) com desapontamentos derivados de expectativas imprudentes.
U2 - "Window in the Skies"
Falando de amor, aproveitei pra me vingar do U2, que proibiu que o YouTube permitisse (afe, nunca mais direi uma coisa dessas) a incorporação desse vídeo inacreditável. Taí, inseri no meu blog. Vão encarar? Amo vocês, nem que seja à força!!!
O exótico parágrafo acima (esse aí, sobre o U2) traz à luz sentimentos como vingança, opressão, ciúmes e violência, que têm sido espertamente vinculados por alguns ao amor, mas que estão mais para a satisfação do ego do que da alma -- e que, portanto, guardam uma distância infinita do verdadeiro amar.
Amar, como eu já disse, deve ser limpo, transparente, correto, justo e, se possível, perfeito.
quarta-feira, 30 de abril de 2008
Quando penso que esqueci
Eu já esqueci você, tento crer
Seu nome, sua cara, seu jeito, seu odor
Sua casa,
sua cama
Sua carne, seu suor
Eu pertenço à raça da pedra dura.
(João Bosco, "Memória da Pele")
sábado, 5 de abril de 2008
A Revelação de Anna e Willis e as Notas Acessórias
“Tão reduzidos estão que sequer perceberam que o telhado da casa sumiu”.
“Vamos falar com eles? Já começamos, então vamos terminar isso”.
“Tem certeza”?
“Sim”.
“Então que seja”.
Chamamos a atenção dos quatro e os retiramos do estado de exclusiva visão do inferior; descemos e nos reduzimos e, num instante, tínhamos a forma humana. Eles estavam estarrecidos, claro, mas entenderam imediatamente que algo absolutamente novo estava acontecendo. E sentiram o perigo. E esperaram que falássemos.
Acalmamos a todos e o casal mais velho saiu. Ficamos com Anna e Willis na ante-sala decorada no estilo sóbrio, simples e alegre da classe média norte-americana dos anos 70.
“Bem, vocês têm o seu grande problema nas mãos. Isso não vai ser fácil”.
Anna tinha os olhos muito abertos e a expressão apreensiva. Willis sentia-se perdido.
“Vocês amam-se muito, não”?
Não era preciso responder a isso.
“Fariam qualquer coisa um pelo outro”?
Eles entreolharam-se.
"Qualquer coisa que fosse lícita, moralmente correta, e exclusivamente entre vocês dois”?
“Sim”.
“Willis, parta”.
Ele foi.
“Anna, Willis vai viajar. Durante essa viagem, ele morrerá. Você receberá de volta as coisas dele, em uma sacolinha de algodão cru. Três objetos apenas, e mais uma coisa que somente você saberá que está ali. Resista e vocês serão recompensados. Tenha paciência. No quinto ano, você receberá boas notícias, quando a sua dor já tiver sido dominada. Adeus, pequena. Persevere”.
No tempo certo, a sacolinha chegou, e Anna viveu a sua dor. Willis não voltaria. Mas ela teve confiança; a confiança fez com que sua dor fosse aceita e, assim, isso não a matou. E ela pôde, aos poucos, voltar a viver.
No quinto ano, Anna esperava um filho. Era um menino lindo e, quando nasceu, Anna viu novamente a sacolinha guardada e, nela, uma mecha – os fios do sinal que Willis tinha na coxa esquerda. A criança tinha um sinal igual e sorria para ela como Willis sorriria ao voltar para casa.
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Notas acessórias do despertar de 5 de abril de 2008:
A imagem é de que, nesta vida, nossa vida em conjunto é um casulo cheio de um amor triste. É um casulo saudável, vivo, luzidio e forte, que almeja, como todo casulo, tornar-se ninfa e, depois, vir a ser algo maior. Mas que percebe permanecer um casulo: saudável, vivo, luzidio, forte; precioso, sim, mas sempre um casulo triste.
sábado, 29 de março de 2008
Amigos
Depois, no Pio XI, fiquei amigo de um garoto cujo nome eu nunca soube realmente. Ele sabia o meu, e eu tinha vergonha de perguntar: achava que tinha obrigação de saber o nome dele. Fiquei chamando de 51, que era o número dele na chamada. Éramos ambos retardatários e ficamos no fim da lista. Meu número era 55. Ele era um dos sujeitos mais legais que já conheci.
No CECA comecei a fazer uma quantidade maior de amigos. Vou tentar enumerar alguns: havia Luciano, com quem eu trocava golpes de judô e karatê no horário do intervalo, rolando no chão aos apertões, socos de mentirinha e alguns pontapés. Era um amigão, sujeito bem-humorado e de grande espírito esportivo. Foi com ele que fui pela primeira vez ao teatro, fazer um teste para ator, que não deu lá muito certo.
Havia os rapazes que lideravam o movimento no colégio, e que me aceitaram entre eles -- penso que nem tanto pela minha habilidade atlética, mas principalmente pela minha incomum generosidade durante as provas e disponibilidade total para compartilhar conhecimento. Lembro agora de Robson, Zaqueu, Wanderley e Roginério; das gêmeas Glória e Gorete, Valéria, Gêneva e uma amiga que perdi por haver dado um chega-pra-lá num guri chato que depois soube ser irmão dela. Ah, e Zé Carlos, que tinha um bruta som e morava perto do colégio. Fiquei amigo de alguns dos amigos do meu primo Paulo, como Clóvis, e chegamos a formar uma banda de rock chamada NoPloCló (hahahahahahaha) que dispunha de um baixo feito de isopor, uma bateria composta por várias panelas e caixas de papelão, e um gravador pra gravar nossos rocks heavy metal berrados por mim em um inglês engraçadíssimo, imitando Robert Plant.
Vieram depois os amigos do Lyceu. Meus três anos de segundo grau me proporcionaram um número de novas amizades que ultrapassa minha capacidade de lembrar de todos eles. Basicamente, eu queria a amizade do pessoal do Grupo Folclórico, do Coral e do pessoal que fazia música no colégio, como Dida Fialho, Tom Ray, Lis e um grupo de Jaguaribe com o qual tive o privilégio de tocar algumas vezes. Houve os amigos do Grupo de Flauta Doce do SESC: Joaquim, Berna (através de quem tive o privilégio de conhecer Fernandito, hoje Fernando Pintassilvo) e Roderick.
Conheci Milita, Soraya, Tadeu Mathias, Marta, Gorete Irineu, Espínola.
Depois, já na faculdade de Economia, trabalhando pra manter minha nova família (Mônica e Kaio) conheci Saulo Barreto, Dr. Guilherme Rabay, Dr. Carneiro Braga e Dona Lígia, Hugo Brito, Emídio, Ilene Helfand e aqueles que seriam os amigos que a distância não separa e o tempo não apaga: Sérgio Carneiro e Paulo Machado.
Este post não se dedica às grandes almas que namorei, mas algumas das pessoas que tive o privilégio de namorar tornaram-se minhas amigas pela vida afora: Jê, Verinha, Mônica.
Minha péssima memória me impede de lembrar de muitas e muitas outras pessoas que, em alguma época, aqueceram meu coração e marcaram a minha alma com sua amizade. Irei acrescentando os nomes à medida que as lembranças forem voltando ou quando justos protestos se fizerem ouvir. Peço a compreensão dos que ainda não enumerei aqui.
Minha vinda para Brasília tinha a finalidade de arranjar-me um novo futuro, já que em João Pessoa não havia muitas oportunidades de trabalho para mim. Aqui conheci muita gente com quem trabalho até hoje. Fiz algumas boas amizades no trabalho, como Marcelo Gurgel, Eduardo Dantas, Marcelo Kasbergem, Álvaro Valente, Laércio Atuati.
Conheci as pessoas simples e muito amáveis do Planat: chegaram a preparar uma festa-surpresa no meu segundo casamento, na casa do querido João Batista. Jaime Lennon, Elias, Lili...
Infelizmente, hoje em dia sinto-me incapaz de dar profundidade às minhas amizades. Talvez o clima de Brasília favoreça o descompromisso e as amizades puramente de trabalho. Ou talvez, mais provavelmente, o problema seja eu mesmo.
Sinto falta de ter amigos. Mas a culpa é minha: gosto mesmo é de ficar em casa e durante todo o tempo em que vivo em Brasília fiquei centrado apenas no trabalho e na minha família, que era o meu mundo todo: Claudia e Victor.
Depois da separação procurei fazer novas amizades, e conheci pessoas muito muito simpáticas na Comunidade do Vinho. Voltei a alimentar a enorme amizade dos meus irmãos. Procurei expandir meus horizontes, mas ainda há muito trabalho a fazer até que eu seja novamente digno de ter amigos. Faltam-me, hoje em dia, as principais faculdades para conquistá-los e mantê-los: dedicação generosa, consideração e franqueza. Tornei-me um poste ou uma parede. Espero poder sair de dentro de mim logo, antes que a vida passe. Gostaria de ter alguns amigos que dissessem dois ou três elogios no meu funeral.domingo, 23 de março de 2008
Errante
Meu coração da cor dos rubros vinhos
Rasga a mortalha do meu peito brando
E vai fugindo, e tonto vai andando
A perder-se nas brumas dos caminhos.
Meu coração o místico profeta,
O paladino audaz da desventura,
Que sonha ser um santo e um poeta,
Vai procurar o Paço da Ventura…
Meu coração não chega lá decerto…
Não conhece o caminho nem o trilho,
Nem há memória desse sítio incerto…
Eu tecerei uns sonhos irreais…
Como essa mãe que viu partir o filho,
Como esse filho que não voltou mais!
segunda-feira, 17 de março de 2008
Poema de aquecer o coração em três quartos
E desabrir a vida
E desatar a brida
E derrubar a porta
E acompanhar a massa
e reverter a mossa
e pra ninar promessa
e devolver as horas
e esquecer da dor.
Também é bom pra esquecer do amor
E ruminar o verso
E refazer o ser
E arrumar a casa
E se aninhar na asa
E perfumar a rosa
E acordar em paz.
quinta-feira, 13 de março de 2008
Quase falei
sábado, 1 de março de 2008
Does Your Life Have a Vision or are You Blowing in the Wind?
The E-Myth Revisited - Michael E. Gerber
"Great people have a vision of their lives that they practice emulating each and every day.
They go to work on their lives, not just in their lives.
Their lives are spent living out the vision they have of their future, in the present. They compare what they’ve done with what they intend to do. And where there’s a disparity between the two, they don’t wait very long to make up the difference.
They go to work on their lives, not just in their lives.
I believe it’s true that the difference between great people and everyone else is that great people create their lives actively, while everyone else is created by their lives, passively waiting to see where life takes them next.
The difference between the two is the difference between living fully and just existing. The difference between the two is living intentionally and living by accident".
sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008
Longe e Perto
E, no entanto, chegar parece uma daquelas operações em que se divide um número pela metade, e o resultado novamente pela metade, repetindo a operação infinitamente, chegando-se cada vez mais próximo do zero, sem nunca chegar.
Talvez eu esteja, em Congonhas, mais perto do meu lar do que quando, finalmente, chego em casa.
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008
Encontros e Despedidas
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008
O Blackout do Messenger
Folha Online - 27/fev/2008 - Internautas em várias partes do mundo tiveram dificuldades para acessar o Windows Live Messenger, o antigo MSN, ontem (26). Alguns usuários não conseguiam se conectar ao programa ou demoraram para conseguir o acesso.
Deu no Tuvalu Times
Vários venusianos foram vistos arrancando as antenas dos satélites em órbita da Terra, só pra ver os aparelhos brigarem uns com os outros.
As mães deles (dos venusianos, não dos satélites) reclamaram e eles foram pra casa fazer as tarefinhas do colégio mas, só de pirraça, voltaram depois com sprays pra pichar o site da Microsoft. Aborrecidos porque os sistemas de segurança não permitiram a pichação, eles resolveram vingar-se derrubando tudo, inclusive os servidores do Messenger. Foram embora ameaçando voltar pra derrubar o WYD, o Grand Chase, o Ragnarok e o Hero Online tão logo acabe a tempestade solar.
Vai dar no NY Times
A NSA (não confundir com a NASA) classificou como sendo terroristas as atividades venusianas na órbita da Terra, e invadiu o planeta vizinho seguindo uma pista de que, além da possível existência de armas químicas, como sprays de tinta, no local, Bin Laden também estaria escondido por lá.
Durante o ataque, a explosão de um artefato nuclear da Agência derrubou acidentalmente o Surfista Prateado e causou um pulso eletromagnético que neutralizou as células de hidrogênio que alimentavam os aparelhos de sobrevivência da mãe dos delinquentes pichadores de Vênus, a qual sofreu falência múltipla de todos os sistemas, sendo impossível reativar qualquer um deles. O desplugamento acidental causou uma onda de protestos e manifestações violentas seguidas de saques, e a embaixada norte-americana no Taiti foi incendiada por grupos armados ligados ao Khmer Vermelho na Dinamarca.
Em Plutão, onde a população ainda está revoltada porque o antigo planeta foi rebaixado à categoria de anão, donas-de-casa saíram às ruas com cartazes e faixas protestando contra a iminente chegada da "nave imperialista" New Horizons, aos gritos de "FMI Go Home", "Internet Já!" e outras palavras de ordem do DCE do P.
A Associação dos Supernerds Neonazistas de Cacimbão da Areia divulgou uma nota de apoio às ações da NSA, afirmando ser "um absurdo que, depois de bugar o MSN, os vândalos alienígenas queiram também derrubar o WYD, justamente quando vai haver evento de triple drop de Poeira de Lac", e afirmaram em rede nacional que "se o lag piorar, vai ter peixeira no bucho dos venusianos".
A ONG "Peixeira Nunca Mais" criticou duramente a nota da ASSUNECA e teve sua sede crivada de facadas durante a noite. Um policial da delegacia em frente, que pediu para não ser identificado, disse que não viu nem ouviu nada, e que tudo não passa de boato, apesar de o prédio ter sido completamente depredado.
O policial afirmou à reportagem que não tem MSN e tem raiva de quem tem.
A verdade
Descobriu-se que o ataque de alienígenas não passava de um golpe publicitário do marqueteiro Duda Mendonça para encobrir as atividades de George W. Bush no Oriente Médio.
Segundo fontes não-oficiais, Hillary Clinton e Barak Obama estariam preparando tumultos da Ku Klux Klan na Síria para justificar uma invasão em larga escala daquele país pelas forças de Israel. A tática incluiria atacar simultaneamente o Irã a partir da frota norte-americana ancorada no Golfo Pérsico, aproveitando falsos atentados xiitas orquestrados por Fidel Castro no norte do Paquistão.
A Índia, revoltada com os atentados, atacaria, por engano, as bases dos Carecas do ABC no Tadjiquistão , abrindo as portas do Norte da China para a entrada das forças dos EUA, que criariam uma base em Katmandu para explorar as imensas reservas de gás e petróleo da região e estabelecer um oleoduto que iria em linha reta desde o sul da Mongólia até o Mediterrâneo, passando pelos países aliados e pelos ocupados pelas forças da Coalizão. As revoltas teriam ainda o apoio tático da Al-Qaeda, já que Osama Bin Laden tem interesse em ajudar os EUA, na tentativa de receber o dinheiro que emprestou ao presidente Norte-Americano quando George Bush filho quebrou, pela terceira vez, a companhia petrolífera da família.
Segundo uma fonte diplomática que não quis se identificar, a queda do Messenger teria sido causada pelo uso indevido de cartões corporativos.
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008
Queimei a pizza de novo
A questão das prioridades é realmente determinante: escolher a prioridade errada é fatal para o objetivo almejado.
É necessário aprender a manter o foco para não queimar a pizza.
segunda-feira, 14 de janeiro de 2008
Aninha
Aninhar: de ninho
v. tr. - pôr em ninho; acolher; agasalhar; esconder; v. int. - fazer ninho; v. refl. - agachar-se; esconder-se; fig. - meter-se na cama.
quinta-feira, 27 de dezembro de 2007
Cabo Branco
Voltei mais pesado: quilos e quilos a mais de mim mesmo, bebidos na fonte.
Pai e mãe são mesmo ouro de mina. Que vivam pra sempre! Vivam os manos, os amigos, as pessoas maravilhosas do planeta. Que voltem sempre!
quarta-feira, 5 de dezembro de 2007
Os blogs dos outros
"Os ventos que às vezes nos tiram algo que amamos são os mesmos que trazem algo que aprendemos a amar. Por isso não devemos chorar pelo que nos foi tirado e, sim, aprender a amar o que nos foi dado. Pois tudo aquilo que é realmente nosso nunca se vai para sempre".
- Sarah M.F.
Nem lembro mais como é que Sarah foi parar na minha lista de amigos; na verdade nunca a vi e, durante todo o tempo em que a conheço, pouco menos de um ano agora, devemos ter trocado três ou quatro scraps. E, no entanto, Sarah, como tantas outras almas soltas por aí,
ocasionalmente fala com a voz dos Mestres e, ao falar-me hoje, fez-me ajoelhar e rezar pelo meu presente e pedir pelo meu futuro.Quantas Sarahs me falaram a vida inteira, me falam agora? Qual Sarah me fará manter, permanentemente, os ouvidos abertos, os olhos abertos, a mente quieta e o coração pensante?
"Quando o estudante estiver pronto, o Mestre virá". "Estar pronto" pode muito bem não ser algo definitivo, como a Iluminação. Pode-se, e felizmente ocorre, "estar pronto" às vezes, para coisas específicas, após uma preparação que pode ser mais ou menos breve. O importante é estar atento, perceber, refletir e exteriorizar.
"A Oração é uma ponte entre Deus e o Homem". Por um ou por uma série de motivos, ou sem motivo aparente, acontece de ficar-se constrangido diante da idéia da oração. Entretanto, pode-se orar dos mais diversos modos, e não é necessário ater-se a um modo em particular. Ore-se do jeito que se desejar, e, amanhã, ore-se novamente de outra forma, conforme o estado de espírito: quantos tipos de pontes podem existir?
Se eu quiser falar com Deus
Tenho que ficar a sós
Tenho que apagar a luz
Tenho que calar a voz
Tenho que encontrar a paz
Tenho que folgar os nós
Dos sapatos, da gravata
Dos desejos, dos receios
Tenho que esquecer a data
Tenho que perder a conta
Tenho que ter mãos vazias
Ter a alma e o corpo nus
Se eu quiser falar com Deus
Tenho que aceitar a dor
Tenho que comer o pão
Que o diabo amassou
Tenho que virar um cão
Tenho que lamber o chão
Dos palácios, dos castelos
Suntuosos do meu sonho
Tenho que me ver tristonho
Tenho que me achar medonho
E apesar de um mal tamanho
Alegrar meu coração
Se eu quiser falar com Deus
Tenho que me aventurar
Tenho que subir aos céus
Sem cordas pra segurar
Tenho que dizer adeus
Dar as costas, caminhar
Decidido, pela estrada
Que ao findar vai dar em nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Do que eu pensava encontrar.
(Gilberto Gil)
Todas as vezes em que alguém se vê cara a cara com o Infinito sente a necessidade de externar seu momento de iluminação. Essa é a grande virtude da luz: ela busca propagar-se.
Os blogs dos outros, as canções, os scraps, os posts, as mensagens, os livros, os textos, os filmes, as imagens, frequentemente contêm a fração exata de luz que o autor pode externar após uma experiência assim. São fragmentos de luz, fótons num mar de cores.
Ser o Estudante é minerar, entrever e sublinhar, nos blogs dos outros, o que complementa o seu próprio fóton.
Curiosamente, o Mestre é a própria Luz.
sábado, 27 de outubro de 2007
segunda-feira, 22 de outubro de 2007
Beleza
“O espetáculo dessa uniformidade universal me
entristece e me gela, e sou tentado a ter saudades da sociedade que não mais
existe. É natural que o que mais satisfaz os olhares desse criador e desse
conservador dos homens não é absolutamente a prosperidade singular de alguns,
mas o maior bem-estar de todos; o que me parece uma decadência é, portanto, a
seus olhos, um progresso; o que me magoa, lhe agrada. A igualdade é menos
elevada, talvez, porém é mais justa, e essa justiça faz sua grandeza e sua
beleza. Procurei então me erguer até essa altura da contemplação divina, para
daí olhar e julgar os cuidados e as penas dos homens”TOCQUEVILLE, 1989, p. 363).
A Beleza pode caminhar ao nosso lado por um caminho bucólico, iluminando a noite como se fosse a Lua; pode rir e encher de cor o dia; dar-nos um beijo e uma carícia. Ou pode caminhar adiante, sem esperar, para demonstrar dúzias de coisas ou sabe-se lá o quê.
Não há diferença entre a beleza que anima e a beleza que fere: um dia serão a mesma Beleza, para o bem ou não. Aquela mesma Beleza volta e caminha ao nosso lado, e seu perfume fere a noite; seu silêncio acinzenta o dia. Ela nada demonstra, e é o reverso do Amor:
C’est une chanson, qui nous ressemble
Toi tu m’aimais et je t’aimais
Nous vivions tous, les deux ensemble
Toi que m’aimais moi qui t’aimais
Mais la vie sépare ceux qui s’aiment
Tout doucement sans faire de bruit
Et la mer efface sur le sable les pas des
amants désunis.
(Jacques Prévert)
quarta-feira, 10 de outubro de 2007
Conhecendo o Eu interior

Existem segredos nossos que até nós mesmos desconhecemos, ou preferimos evitar conhecer. Quando esses segredos parecem guardar alguma relação causal relevante com eventos importantes em nossas vidas, chega a hora de lidar com eles e, para tanto, é necessário deles tomar conhecimento.
Imbuído de toda essa retórica filosófica e convencido, pela pancadaria dos eventos, de que a hora dos meus segredos chegara (banzaiiiiiiiiii!!!!) cedi à recomendação antiga de Claudia, à pressão de seda de Ana e ao apoio de Vera (curiosa, essa força delas) e procurei um profissional desses que, não à toa, são conhecidos nos EUA pelo singelo substantivo-adjetivo "shrink", aqui "psicólogos". A idéia era conversar, me abrir, acessar meu eu interior e todo o conjunto de assertivas neoterapêuticas.
Pois sim.
Logo ao chegar à clínica, um cidadão atento destrancou o alto portão de alambrado para que eu pudesse entrar e perguntou: -O senhor vai fazer consulta ou visita?
Desligado que sou ("consulta", eu disse), nem percebi as implicações da pergunta e, candidamente, adentrei o espaçoso hall, dotado de uma decoração agradável e de muitos sofás de aparência confortável. Fui atendido simultaneamente por duas recepcionistas que poderiam muito bem estar na base do Carro de Apolo. Muito gentil, o Dia assumiu o cadastramento do meu lado socio-econômico-profissional e o controle do meu hipocampo, enquanto a Noite, igualmente gentil, cuidava dos aspectos burocráticos relativos à minha pessoa física e capturava meu sistema límbico. Disseram-me que o médico iria atrasar o meu atendimento, pois cuidava de uma internação. Eu devia ter captado essa também, mas estava distraído. Só comecei a acordar quando, após as informações de nome, endereço, telefone e nome dos pais, a Noite me perguntou:
-Nome do responsável?
Pasmei.
- Hein? Desculpe, nao entendi. O responsável por mim? (boca aberta, dedos da mão direita no peito e sobrancelhas em riste, olhando por cima dos óculos)
- Humrum. (cara de "claro, imbecil, quem tem problemas mentais aqui é você")
- O responsável sou eu!!... (cara de "tá pensando o quê?")
Ainda estupidificado, perguntei: -Existem mesmo pessoas da minha idade que chegam aqui como eu cheguei e que têm outras pessoas como responsáveis?
- Humrum. Tem sim.
Ato contínuo, quod erat demonstrandum, um garoto de, digamos, uns 26 anos, caucasiano, de camiseta e shorts bonitos, cabelo bem cortado mas com uma cor de pele sem brilho que me fez lembrar os tanques de formol da faculdade de Medicina, parou ao meu lado, olhou-me fixamente de forma amigável e me estendeu a mão. Nem pensei duas vezes: apertei firmemente a mão tão simpática: -Oi, tudo bem? - Tudo bem.
Instruído pelas Apolíneas a aguardar na sala de espera, levei o que sobrou do meu neocórtex para o hall e passei a olhar tudo com mais atenção. Um casal sentava no sofá do fundo: a mulher parecia apreensiva, mas o homem que fumava e conversava com ela estava definitivamente em algum outro lugar. Uma senhora solitária parecia envolta em uma aura de ferro. Outros dois viam TV em uma sala separada, e pareciam bem confortáveis em seus pijamas.
Com uma sensação remota de koyaaniskatsi, resolvi tomar um chá pra ver se achava o meu planeta. O sujeito simpático brotou novamente do meu lado e disse: - "Ponha 70% de café e 30% de chá. Não cabe no copinho pequeno". Inferi que "70%" equivalem a uns 70 ml. Evitando contrariar meu novo amigo, fiz o que ele disse; e não é que ficou bom mesmo?
O sujeito eclipsou-se de novo e fui tomar o chafé na sala de TV, vendo o noticiário. Meus dois colegas de sala me olharam como a um verme e me esqueceram. Um jovem esguio e bem vestido, que parecia ser um profissional da clínica, veio e cumprimentou efusivamente os dois, ignorando-me totalmente.
Outro rapaz em shorts e camiseta sentou-se ao computador no canto da sala e começou a digitar um e-mail, enquanto limpava a garganta. E limpava com mais força. E mais forte. E ainda mais forte. Num crescendo, aquilo que começara com um simples "hum-hum!" transformou-se em um rugido respeitável, digno do melhor barítono das savanas quenianas ou das florestas canadenses e, quando eu me preparava para largar o escudo e salvar a pele em desabalada fuga, surgiu um cidadão de camiseta e músculos que perguntou docemente ao rapaz algo como "o que há, Fulano?" -- ao que o jovem levantou-se e saiu conversando placidamente com os músculos sobre sei lá o quê.
Foi quando percebi que havia telas de proteção em todos os vidros e janelas, o PC estava firmemente preso ao piso e a TV à parede, e notei a altura impressionante do alambrado que cercava a clínica. E eu tinha estacionado do lado de dentro!! Como explicar à dona do carro que o automóvel dela tinha ficado na terapia intensiva?
Estudando as possíveis rotas de fuga, notei que uma moça da clínica conversava no hall com um rapaz tatuado e forte. Ela dizia: -"Eu nunca pego o telefone dos homens; prefiro dar o meu telefone a eles". E o cara: -"É, eu também". E a moça: -"É que, se ele tiver interesse, vai ligar; se não tiver interesse, não vai ligar, entende"? E o cara: - "É". Devo confessar que a lógica do raciocínio me escapou totalmente, prejudicando de vez a minha auto-avaliação psicológica.
Lembrei que, há muito tempo atrás, fui a uma clínica de pneumologia para consultar um médico sobre uma tosse que me incomodava. Ao examinar-me, o médico me perguntara: -"Trouxe suas coisas"? E eu: - "Hein, como assim, minhas coisas"? E ele: - "É, você apresenta um quadro grave de bronquite asmática, e terá que ficar internado por quinze dias. Telefone para informar ao seu trabalho e ligue para casa para que alguém lhe traga suas roupas e outras coisas". E lá fiquei mesmo, vendo o povo morrer durante a noite e aturando a enfermeira acender a lâmpada de 300 kilowatts na nossa cara a cada três minutos pra enfiar uma bruta seringa em alguém.
Essa lembrança me deu o recado final. Pensei: - "Putz, se esse médico perceber só um pouco, vou ficar morando aqui". Saquei a chave do carro, esforçando-me para comportar-me como uma pessoa normal. Fechando as asas que se abriram dos meus calcanhares, caminhei compassadamente por entre rostos picassianos até o estacionamento, cliquei no alarme e liguei o carro. Surpreendentemente, o cara da Gestapo abriu a ponte levadiça sem qualquer pergunta e me deixou sair.
Em pouquíssimos segundos o motor 1.0 fez 80 Km/h e, antes que eu pudesse piscar os olhos, estava buscando abrigo num Schhoppinngg Scenntterr do Lago Norte, com todas as implicações psicossociais que isso possa conter. Caminhei por entre as pessoas, mesas, lojas; entrei pra olhar brinquedos; pedi sushi e sashimi com missoshiro num lugar chamado Haru (Primavera) (eu devia ter notado isso também) e sentei-me na praça a céu aberto com a Folha de São Paulo na mão; fiz quatro ou cinco telefonemas de trabalho e outras tantas chamadas pessoais, com todas as demais implicações. Tudo parecia normal. Devidamente assegurado de que ninguém tinha denunciado a minha fuga, respirei.
Na hora não pareceu engraçado.
terça-feira, 2 de outubro de 2007
Ordem
Sou triste, quase um bicho triste
(Caetano Veloso, " Mãe")
segunda-feira, 24 de setembro de 2007
Técnica x Força
Este vídeo mostra Victor, em seu combate final durante a II Copa União de Judô, em setembro/2007, quando sagrou-se campeão invicto de sua categoria. Venceu a primeira luta por ippon em 4 segundos e a última, também por ippon, em 10 segundos. Observem a agilidade nas esquivas e a garra para manter-se de pé diante de um adversário que adota o estilo europeu (privilegiando o uso da força e do tamanho). Notem também o aproveitamento da oportunidade e a perfeição do contragolpe. Detalhe para a fúria do vencido, que achava que ia ser fácil, e para o feliz e inesperado cumprimento final. Pena que a baixa resolução do filme não permita que vocês vejam o sorriso de vitória do campeão e a expressão do juiz após o cumprimento. Impagáveis.
Victor está usando kimono azul.
quarta-feira, 19 de setembro de 2007
O Tempo do Amor
Por seres tão inventivo e pareceres contínuo
Peço-te o prazer legítimo e o movimento preciso
Tempo Tempo Tempo Tempo quando o tempo for propício"
(Caetano Veloso, "Oração ao Tempo")
O que pode ser mais precioso do que uma pergunta assim:
- “Quando você virá de novo?”

E: - “Eu queria que você ficasse só mais uma semana”.
Pois essas foram as palavras usadas pelo intrincado labirinto da Natureza para me confortar: com a voz do meu pequeno filho, o Criador me disse: -“Recebe de volta o amor que deste”.
Somente Deus mesmo pra nos falar assim, em dolby surround stereo, diretamente ao nosso coração, mente e alma. Quando se diz que Deus é bom, nem se faz idéia de quantas interpretações essa frase pode ter, inclusive relativamente à Sua Capacidade Técnica.
Em pouco tempo abraçarei meu pequeno novamente; juntos, então, desafiaremos outra vez as ondas da Praia do Poço, salvaremos os peixinhos abandonados pelos pescadores e compraremos todos os sorvetes, pirulitos e amendoins que passarem, enquanto desfrutamos o grande amor que nos cerca.
quinta-feira, 6 de setembro de 2007
Oração
Senhor,
Meu filho é puro, e por isso pode refletir a Luz sem mácula.
Ele é mais uma Tocha na escuridão,
e poderá iluminar o caminho para outros homens.
Protege Teu luminar, Senhor, porque ele ainda não sabe que é luz
E nem sabe como a luz é frágil.
Carrega-o em Tuas mãos como fizeste a mim,
Guarda-o,
Conforta-o
Sê seu manto e adaga, seu cajado, sua cabana.
Permite que ele diga Tuas palavras,
Que ele derrame Tua Luz sem cessar,
Ama-o e ajuda-o, que ele há de ser para Ti um altar.
Cultiva o seu coração, abre suas asas,
Mas afia suas pequenas garras, Senhor, para que ele defenda o Teu Templo.
Dá-lhe o poder magnético do Amor, que anula a escuridão.
Faze com que seu sono seja calmo e sossegado,
E que ele sempre seja capaz de ouvir os Mestres.
Eu o amo como amas a mim, e como Pai o conheço e sei que é bom.
Em nome da Verdade e da Justiça
Aqui deixo meu coração sem medo e confiante do Teu Amor.
Assim seja.
terça-feira, 28 de agosto de 2007
Boa sorte
(Beto Guedes)Viagens de buscar
Hoje a noite serenou
Risadora
Ela vai embora ao nascer do sol, seguindo seus irmãos. Depois disso o sol e as risadas terão algo em comum; e no quarto escuro não vibrará qualquer som.
Who is Clark?
Meu nome estala. Embora tenha sido um cavalo durante a vida inteira, tenho lembranças de ter sido uma outra coisa, em um outro lugar.A mesa é fria, a sala é fria, a luz é fria. Um motor zumbe e levanta minha mão, como se não fosse minha.
Minha mente esquadrinha minha mente com um pensamento alheio enquanto novos motores zumbem e dezenas de câmeras estabilizam a massa de plástico e circuitos impressos que se ergue como se não fosse eu.
Meu nome agora estala. Quando eu tinha um nome macio, eu poderia ter sido uma coisa da Humanidade. Isto não é um cavalo. O que será?
Venha cá, rapaz. Deixe-me olhar pra você. Você é um orgulho, mas pecará contra si. Eu o verei muito tempo depois, muitas vidas depois, terra desolada, lamentando sua perda. Nessa ocasião você verá a face da Esfinge e a desvendará através de seu próprio enigma. Você desejará ter estado mais próximo, e a iludirá com a miragem da sua presença.
Lave-se, proteja o menino. Seu tempo passou: é sua vez de se indignar.
sábado, 25 de agosto de 2007
O que há de novo?

Por falar nisso, ontem foi um dia de descoberta: a torta da Famiglia Morelli foi um caminho novo para o Nirvana, e pena que não seja possível comer o suficiente pra chegar lá. Mas é por ali também que se vai.
Hoje é dia de trabalho. Então, larguemos por enquanto o lado light da vida e labutemos nas coisas já descobertas e seguras. O trabalho é uma dádiva e graças a ele também se alcança o paraíso. Ele nos dá a tranquilidade necessária para bem aproveitar a oração, essa ponte entre o Homem e o Cósmico.
Pater noster qui es in coelis, sanctificetur nomen tuum. Adveniat regnum tuum. Fiat voluntas tua sicut in coelo et in terra, quid macroprosopis, quid microprosopis. Panem nostrum quotidianum da nobis hodie et dimmite nobis debita nostra sicut et nos dimmitimus debitoribus nostris. Et ne nos inducas in tentationem sed libera nos a malo.
Assim seja!
segunda-feira, 20 de agosto de 2007
Espaços
Noto com prazer que novos espaços são criados; lugares que não existiam antes, e que já nascem preenchidos por doçura, ternura, afeto e por uma nova composição muito suave. É um novo trabalho, nova trilha.
Onde vai dar?
terça-feira, 14 de agosto de 2007
Filha
O que ela vai fazer quando acordar? Poderá vir, na ponta dos pés, olhar o meu sono e ficar ali a me olhar, com a respiração contida; poderá entrar embaixo dos meus lençóis e aninhar-se em mim até me acordar com um beijo; ou, moleca, cairá na risada enquanto me faz de cama elástica, esperando que eu a pegue e diga: "ah, é assim? " e a derrube e cubra de beijocas e cócegas, rolando na cama entre declarações de amor.segunda-feira, 6 de agosto de 2007
Trabalho e prazer
Devido à pertinente reclamação feita por Beth ("pra quê viajar tanto?") senti-me obrigado a explicar minha ausência de Brasília e também:1 - Por quê perdi o espetáculo "Disney Para Piano e Voz", com coreografia assinada por Kaio, que lotou a sala Villa-Lobos do Teatro Nacional por duas noites seguidas, e que eu esperava ansiosamente?
2- Por quê faltei ao encontro da Comunidade dos Apreciadores de Vinho de Brasília, desta vez hospedado na casa de Elizabeth, onde, eu soube, rolou um caldo verde de fazer inveja a qualquer gourmet? e
3 - Por quê declinei do convite pra um chopinho com Mônica pra atualizar assuntos de família?
Ocorre que, pra manter a vida mansa e boa, é preciso trabalhar. Assim, tive de encarar dez dias seguidos de muito frio em SP, mudanças diárias de apartamento e de hotel, alterações de vôo, piqueniques solitários no F1 da 9 de Julho e muito trabalho – este, felizmente, com as pessoas mais bem-humoradas do biz. Fizemos um pusta trabalho de equipe, brainstorm todo dia, reuniões de estratégia, quinhentas revisões de três papers (ih, jargão da moda) e brigas diuturnas com a bendita impressora Xerox Workcentre 415 PRO/420 XL, que é mais complicada do que o nome sugere. Finalmente concluímos o trabalho e chamamos isso de um dia (“called it a day”, entendeu? ^^).
Concluída a tarefa do domingo, por volta das 20 horas fomos almoçar um poulet au purée des pommes de terre (ué, resolvi dizer isso em francês; iiiih...) com legumes ao vapor, no Senzalinha. Comi feito uma anta, o que me obrigou a deixar o pesadíssimo equipamento de trabalho no hotel e fazer uma caminhada. Moreover, não achei personne, personne! na internet.
Admito: a idéia da caminhada estava associada a outra idéia, de conhecer um pub irlandês que vi na Peixoto Gomide e cujo nome desisti de tentar lembrar. Assim, fiz a agradável caminhada pela Barão de Capanema, subi a Peixoto e bonk! a cara na porta trancada do desabitado pub. “E agora?”
O jeito foi descer a ladeira de novo em busca de outro lugar potencialmente barulhento e com boa cerveja. Após um curto momento de pânico na Avenida Estados Unidos (não tinha vivalma na rua!), tomei de novo o rumo certo e babei todas as vitrines dos antiquários da Rocha Azevedo, ao ponto de despertar a curiosidade truculenta dos seguranças dos prédios vizinhos. Sem dar pelota aos negões de terno escuro e cara de Apollo Doutrinador, continuei babando as lojas até chegar à Barão de Capanema outra vez, quando o velho sentido de aranha fez bip: - vai por ali!! Contrariando a rebeldia lusa de José Régio, obedientemente percorri a Rio Preto até a Oscar Freire - e zás!, dei de cara com a acolhedora entrada do Santo Grão Café, cheio de gente vestida de preto, com longos cabelos negros e cara de conteúdo.
Sentindo-me em casa, entrei (todo de azul!) no café e refestelei-me (ah, vai dizer que não lembra de "refestelei-me") no confortável bar que separa o discreto e elegante povo de preto do outro povo, mais colorido e menos cabeludo, e que não entrou, ou já saiu, da egotrip de fazer gênero (orra, meu, dava pra fazer um comercial de café do Quartier Latin com o povo de preto. Fiquei esperando Andy Warhol entrar).
Pedi o fantástico café mineiro que ganhou o Cup of The Season de 2006, não sem antes brindar à glória da Criação com uma geladíssima Baden Baden, repleta do sabor cristalino das águas de Campos do Jordão, duas recomendações feitas pela jeune ètoile que, ao me atender, gentil e despretensiosamente me instruiu na cultura nativa.
Saboreei tudo devagar, Cup, Baden, ètoile, aquela música tão indefinível quanto nosotros convivas, a quietude das vozes e os aromas. Finalmente, com o café fechando e eu quase virando abóbora, saí e fiz a caminhada inversa, tendo o cuidado de passar antes pelo Pão de Açúcar e comprar uma caixa de chocolate com menta e outra de chá de cidreira.Na recepção do hotel, tudo era sossego e good mood. Dividi as mentas com o recepcionista, subi e preparei o chá, antecipando a alegria de viver tudo isso outra vez. O laptop se encarregou de fazer com que eu vivesse três vezes, já que apagou o post inteiro quando eu estava pra concluir. Repeti e curti muito de novo.
sexta-feira, 3 de agosto de 2007
Sweet Hearts
Hoje é um dia de aniversário. Nem tem nada a ver comemorar esse, mas hoje também é sexta-feira; e foi um dia particularmente cansativo no trabalho.Estou há uma semana em São Paulo, com bagagem suficiente pra apenas dois dias. Os sucessivos adiamentos me impediram até de mandar lavar roupa. Tive que ir ao Carrefour duas vezes pra comprar mais algumas coisas pra vestir; assim, hoje aproveitei pra visitar a bela adega do supermercado, na Pamplona. Lembrei que amanhã tem encontro da comunidade do vinho em Brasília e comprei um vinho espanhol, um Rioja 2004. Bom! Trouxe já aberto pro quarto do hotel, juntamente com (aff) um peso de roquefort, um Brie, uma pera, um saquinho de amendoim, outro de castanhas do ceará e uma caixa de Bon Gouter, que se juntaram à caixa de Polenguinho de ontem pra compor a mesa de jantar mais eclética desta grande metrópole que são as sextas-feiras.
Depois de pegar uma briga feia com a rádio do Skype, que insistia em tocar rock, desisti e abri o Musicovery: não dá pra escolher exatamente o que se quer ouvir, mas é melhor do que rádio bugada.
Um bom banho expulsou meus yah-yahs, e finalmente tá tocando música civilizada na WebRadio. Não que eu não goste de rock: gosto muito mesmo, mas rock tem hora. Agora tá rolando Norah Jones e, em seguida, vai tocar alguma coisa de Diana Krall. Bom!
Sinto falta de pessoas que eu ame. Amar e dar amor é muito muito muito bom!
Pensei em seguir o bom conselho de Ana, que me ligou de Honduras pra me ordenar que eu me divertisse, e ir ao cinema ou a algum pub; mas ficou tarde pro cinema, e que raios eu vou fazer num pub sozinho sem estar nem um pouco a fim de entrar na lengalenga do ignora-rudemente-mas-paquera em que se transformou a humanidade?
Putz! Por falar nisso, lembrei-me da folcloríssima figura Ricardo Tolete, sanfoneiro de Lampião, que, numa noite iluminada diante do glorioso portal do Theatro Santa Roza, há muitas vidas atrás, me cutucou e apontou disfarçadamente pra dois caras que estavam parados a alguns passos de distância, perscrutando a natureza feminina solta na buraqueira da noite paraibana: com vaticínio soberano, o querido Ricardo sanfoneiro disse que tava escrito na testa dos dois primatas, e tava mesmo, "quero comer b*****". Lembrei até do gesto feito com dois dedos e levado até a testa, que ilustrou aquela memorável fala.
(Pronto: Norah resolveu cantar "What Am I to You": a peste tinha que aparecer na minha cômeimouração! Que tipo de animal sem vergonha na cara sou eu? Felizmente fui salvo pelo gongo por um tal Lee Scratch Perry, cantando um reggaezinho jamaicano balançado, "Why People Funny", que trouxe de volta o alto astral. Bom!)
Depois de uma semana de frio incrível, fez sol hoje o dia inteiro na cidade dos paulistas. Liguei o ar condicionado enquanto o rádio subia de novo graças ao baixinho Michel Petrucciani.
Não sei como terminar este post. Na verdade não queria despedir-me do querido diário: gosto de conversar sobre mil amenidades por segundo. Um blog é boa companhia. Abraço!
quinta-feira, 2 de agosto de 2007
Vermelho
O que é essa timidez que parece subserviência? Por quê essa cara no espelho do elevador? Ela me fazia tanto bem; e agora me deixa assim, triste, envergonhado, tímido, infeliz. Falar com ela é bom, mas a ressaca é péssima. Ainda falta administrar isso.
terça-feira, 31 de julho de 2007
Terra, 2007 A.D.
De Brasília, minha nova amiga muito querida me manda um torpedo de puro afeto: eu estou melhor? Tomei o chá? Penso em como é bom estar com ela, estar na memória e na pele dela, ela pensando em mim.
Pela WebRadio, Chick Corea me presenteia, sem saber a quem, com uma inacreditável polifonia espanhola, fazendo meus elétrons passearem pela Ibéria inteira em poucos segundos.
Lá fora, São Paulo me acena com seu beijo gelado de noite estrelada, e retribuo com um gesto de Malbec 2005, com sabor de Mendoza.
Há poucos instantes, um filhote abandonou o game pra me atender ao telefone, falando-me com a alegria de quem me espera.
É muito bom estar aqui.
segunda-feira, 30 de julho de 2007
Atento e forte
domingo, 29 de julho de 2007
Aprendizado
Aprender a ler todas as línguas, mesmo sem dominar a todas; distinguir as cores dentro das cores; conhecer os ritmos e suas origens; distinguir o oboé e a viola dentro da orquestra: isso é ouvir quando o Criador fala; é ler os manuscritos da Mente Universal espalhados por toda parte.
Distribuir o que for viável. Receber sem constrangimento. Beber só pelo paladar. Amar até cair. Despencar com elegância. Renascer como quem emerge do mar.
A Blossom Fell
(Nat King Cole)To dream forever
sábado, 21 de julho de 2007
Amanhece
Enfim, enfim, enfim, a luz.
Em breve restará do frio apenas a carícia do orvalho, atestando que tudo passa e que apenas o que é belo permanece na memória.
Bem-vinda tu, Terra, Água, Fogo e Ar. Que a Paz seja sobre ti, a Luz seja tua, a Vida cubra a nossa superfície e as fontes cantem novamente em um tom maior; e que, libertada, a alma do Homem aqueça, cintile, mova as árvores e abrace novamente o Universo, como se abraça um irmão querido a quem há muito tempo não se via.
Nascente
quinta-feira, 12 de julho de 2007
Coisas que amo
Adoro ver criança feliz, passeando com os pais. Adoro ver pessoas ansiosas no aeroporto, esticando o pescoço pra ver outras pessoas que chegam, antecipando o abraço e o sorriso. Adoro o calor humano do meu colega de avião, a solidariedade da moça que espera até que eu consiga tirar minha bagagem e sair da frente. Amo ver o sol e ver as pessoas espalhadas na grama recebendo toda essa energia. Pássaros. Entardecer. Boa música, vinho, queijo, perfume de madeira e alma boa.Gosto do orvalho nos pés. Da atenção da amiga tão boa que eu nem mereço. De preguiçar no domingo. De abraço. De sonhar. De querer, com força, ser feliz.
Arreda, peste!
Desprezo, menosprezo, desdém, agressões comuns e atípicas, repetidas a curtíssimos intervalos, nada disso deu resultado: ela continuava lá. Por fim, chutou o pau e a barraca, arrasou estradas, explodiu pontes e queimou navios; apagou com um aceno o presente e o futuro e, contra toda a minha resistência, entrincheirou-se nalguma das minhas poucas sinapses neuronais. E pronto: volta e meia, é ela!, de novo em cena, em campo, na raia, no tom, em toda parte, como uma Guardiã do Umbral, como uma nevralgia generalizada, me contar como a vida era e como poderia ser. Assim não dá.
terça-feira, 3 de julho de 2007
Amigos batem duro
Minha amiga pedagoga e psicóloga me disse outro dia, com aquela alma carioca que ela tem, que a minha necessidade de ir à Catedral e aproveitar pra ser abraçado irmanamente foi pautada por uma extrema carência afetiva, dessas que aproximam as pessoas da religião. Disse isso na minha cara, como quem dá uma travesseirada. E doeu! Mas amiga é pra isso mesmo, pra acordar a gente. quinta-feira, 21 de junho de 2007
As Vozes da Voz
O Criador nos fala continuamente através de Sua obra. Uma de Suas vozes, posta no meu caminho por Sua infinita bondade, me mandou uma mensagem por e-mail, contendo uma citação que, parece, é de Fernando Sabino. A notação léxica corre por minha conta."De tudo ficaram três coisas:
A certeza de que é preciso continuar; e
A certeza de que podemos ser interrompidos antes de terminar.
Fazer da queda um passo de dança;
Do medo uma escola,
Do sonho uma ponte,
Da procura um encontro;
Fernando Sabino, do livro "Encontro Marcado"
(*12-10-1923 +11-10-2004)
terça-feira, 19 de junho de 2007
A verdade é mais prática do que a mentira
Achei tão boa que resolvi copiar para este modesto blog uma bem-humorada crônica do jornalista Fernando Bonassi, em que o autor trata da praticidade da verdade e de matérias afins. Extraída do livro "As Melhores Vibrações", de Fernando Bonassi. Tim-tim.Você acredita no que ouve?
Costuma-se acreditar por aí, pelo menos da boca pra fora, que verdade é melhor que mentira... Isso, é claro, supondo que todos nós saibamos sempre o que é uma coisa e outra. Tentando o impossível, isto é, não entrar no mérito moral de um lance como esse, diria que a verdade é mais prática do que a mentira.
Explico: o bom mentiroso, por mais inexperiente que seja, sabe que mentira requer produção. Boa mentira tem drama, surpresa, urgência, emoção, colorido. A verdade nem sempre precisa de tanto brilho para ser aceita.
Mas espere: brilho também não é tudo. Como a clássica reportagem jornalística, a mentira precisa responder aos quesitos "quando", "onde", "como" e "por quê" de forma limpa, clara e direta.
Trocamos um bom e velho jogo da verdade pela história mais fabulosa, desde que ela nos tire da vida besta em que nos colocamos no dia-a-dia. Por essas e outras, o "álibi-fone", instalado no Hoff Bar, dá o que falar, embora melhor seria dizer "dá o que ouvir". Os proprietários do lugar instalaram uma cabine especial que permite ao usuário dar as suas "boas desculpas" embaladas por uma sonoplastia de alto nível.
Trata-se de uma cabine telefônica com tratamento acústico, de forma que a eventual bagunça de fora não invada o incauto ou incauta transgressora (que malandragem não é patrimônio masculino).
Ali, ele ou ela pode sacar o celular e escolher entre as quatro opções de sons de fundo disponíveis no momento: trânsito, obras, metrô e parque, que os usuários apelidaram carinhosamente de Ibirapuera. Esse último, aliás, o mais arriscado: há pássaros cantores demais para as áreas verdes do pedaço.
Não sei muito bem como a "guerra" pode ajudar o mentiroso local, mas quem precisa de mais tempo longe dos olhares da parceira ou do parceiro pode muito bem dizer que foi ao Líbano ou Colômbia, sei lá.... Cada um inventa o que melhor lhe convém ou, como já dissemos, o que mais tesão lhe dê.
Por essas e outras, senhoras e senhores, muito cuidado com o que andam ouvindo por aí, especialmente com aqueles prosaicos ruídos ao fundo das ligações urgentes de vossos amores.
segunda-feira, 18 de junho de 2007
Depois da tempestade
Aquela p**** de navio navegou, arquejou com as ondas, enfrentou galhardamente tempestades e calmaria; fome, sede e peste se fizeram presentes, junto com os mares azuis, noites estreladas, brisas doces, gaivotas, belos sóis e magníficas luas, festas, alegrias, novos portos, novas rotas, novos acréscimos à tripulação.quinta-feira, 14 de junho de 2007
Nothing Gold Can Stay
Tempo
Os melhores dias
É difícil aceitar que uma fase acabou para sempre e não voltará mais. Difícil imaginar que vamos ser felizes novamente, findos aqueles que, vistos de hoje, parecem ter sido os melhores dias das nossas vidas. terça-feira, 12 de junho de 2007
Grampo
Bênçãos
Eu sei quanto tenho. Agradeço todos os dias pelas incontáveis dádivas que recebo, até por aquelas que nem percebo. Amo a Deus com todas as minhas forças e seria incapaz de um ato de ingratidão diante da quantidade imensa de bênçãos que o Universo derrama sobre mim todos os dias, desde que nasci. As lágrimas de saudade também são uma bênção; então hoje vou-me permitir algumas delas sem culpa. O resto é a mais pura alegria.segunda-feira, 11 de junho de 2007
"Let's Fall In Love"
(Ted Koehler and Harold Arlen)Dedicado a todos os namorados neste 12 de junho.
I have a feeling, it's a feeling
I'm concealing, I don't know why
It's just a mental, sentimental alibi
But I adore you
So strong for you
Why go on stalling
Our love is calling
I am falling
Why be shy?
Let's fall in love
Why shouldn't we fall in love?
Our hearts are made for it
Let's take a chance
Why be afraid of it
Let's close our eyes and make our own paradise
Little we know of it, still we can try
To make a go of it
We might have an end for each other
To be or not be
Let our hearts discover
Let's fall in love
Why shouldn't we fall in love
Now is the time for it, while we are young
Let's fall in love
We might have an end for each other
To be or not be
Let our hearts discover
Let's fall in love
Why shouldn't we fall in love?
Now is the time for it, while we are young
Let's fall in love
domingo, 10 de junho de 2007
Valentine's day
Vem aí um Dia dos Namorados, meu primeiro sozinho em décadas. Não sei mais paquerar, encantar, atrair, namorar. Aliás, nunca soube. Sou um paquerador desastrado. Sou tímido, o que é a morte da paquera. Em todas as vezes em que namorei, com uma única exceção, a iniciativa coube à moça. Já viu?Amar
No final de agosto de 2006 deixei um scrap numa comunidade do Orkut intitulada "Amar é Foda". Era assim que eu via o amor então:Dizer que "amar é foda" é dizer muito pouco
Grande balanço
Lembretes de vários gumes para mim mesmo: - a vida ainda não acabou;
- a luta também não;
- não estou sequer perto da praia;
- tenho metas;
- tenho coração;
- amo muito, mas me amo também;
- tenho responsabilidades para com as pessoas;
- tenho responsabilidades para comigo;
- fugir das tarefas não elimina as tarefas, e elas não se executam sozinhas.
quinta-feira, 7 de junho de 2007
Caminhada no Parque
Outro dia fui surpreendido por um grupo de alunos de Educação Física de uma renomada faculdade de Brasília, enquanto dava meu passeio pelo parque. Disseram que iam me medir, testar, etc., tudo de graça. Ok, de graça eu aceito.Depois de me submeter a uma bateria de uns doze exames, o formando vaticinou: caminhada light, tipo passeio, como eu fazia, tinha um bom efeito psicológico, relaxante, mas era necessário aumentar o ritmo dos meus exercícios, para aumentar o batimento cardíaco, não sei bem pra quê.
Ah, caminhada não é exercício, é terapia. O bom de caminhar está na sensação do vento passando pelas orelhas, nos cheiros e sons do caminho e na luz da hora que se escolhe para passear. Quando quero suar e me arrebentar, vou pro karatê.
Se não sabe brincar, não desce pro play.
Após três meses da separação eu já era capaz de pensar com alguma clareza novamente e escrevi um soneto de cauterização. Confortei-me com os versos de Milton: "...toda dor ainda desaparece numa esquina ou noutra emoção; e estarei, de luar no peito e fogo no interior, desregrado, entusiasmado, cabe o mundo inteiro no meu coração". Esperança. O soneto ficou assim:
Soneto de lembrar um dia
Euni - Brasília, 25 de março de 2007.
Depois de tudo, eu murmurei tristeza
E solidão, e mágoa, e amargura.
Mas eu me lembro ainda da beleza
Do nosso amor, da cândida ternura.
Lembro a doçura antiga, colorida,
Do confortável conviver diário:
Essa lembrança eu vou guardar no armário
Das coisas belas que ganhei da vida.
Eu seguirei a trilha, caminhante
Feliz do amor que a vida nos compôs;
E quando o tempo nos lembrar, depois
Daquele amor, ainda que distantes,
Nós oraremos a oração do amante
E nos verás, e eu verei nós dois.
Pra onde vão os Blogs?
É tentador pensar num blog como uma cápsula do tempo. Como um livro. Como as garrafas de náufragos.
Quem lerá por último os meus pensamentos, num exercício atemporal de telepatia?
Cecília

Canção Mínima
(Cecília Meireles)
No mistério do Sem-Fim
Equilibra-se um planeta.
E, no planeta, um jardim,
E, no jardim, um canteiro;
No canteiro, uma violeta,
E, sobre ela, o dia inteiro.
Entre o planeta e o Sem-Fim,
A asa de uma borboleta.
A Linha e o Linho
A Linha e o Linho
(Gilberto Gil)
É a sua vida que eu quero bordar na minha
Como se eu fosse o pano e você fosse a linha
E a agulha do real nas mãos da fantasia
bordando, ponto a ponto, nosso dia-a-dia
E fosse aparecendo aos poucos nosso amor
Os nossos sentimentos loucos, nosso amor
O ziguezague do tormento, as cores da alegria
A curva generosa da compreensão
Formando a pétala da rosa da paixão
A sua vida, o meu caminho, nosso amor
Você a linha, e eu o linho, nosso amor
Nossa colcha de cama, nossa toalha de mesa
Reproduzidos no bordado a casa, a estrada, a correnteza
O sol, a ave, a árvore, o ninho da beleza.
quarta-feira, 6 de junho de 2007
Capítulo II: Noite
(ver primeiro o Capítulo I) Kate não tinha forças para soltar-se do meu abraço, e parecia não notar o garfo de prata, que tanto me assustara, os tons de rosa multiplicados em pequenos pontos onde o metal pressionava sua pele.A pequena Cathy assistia calada, o medo nos olhos, àquele abraço que misturava a esse mesmo medo a dor, o desamor, o desamparo, a frustração da alma violentada, a absoluta impotência diante da força muda que deveria ser a nossa protetora e não a nossa tirana. Pobre Cathy, sua pequena dor permitir-se-ia despir através daquele pobre olhar?
A fúria que desencadeara aquele momento terrível se fora; levara consigo toda a resistência da boa Kate, e deixara uma mulher preenchida por uma profunda tristeza.
Eu continuava abraçando-a, confortando-a com minhas próprias mãos claras, a voz meiga e terna, as carícias de irmã nos cabelos sedosos e no pescoço delicado, nossas almas igualmente abraçadas no torvelinho daqueles sentimentos todos.
Os soluços diminuíam, e Kate agora também me abraçava, aquecendo-se na ternura que se irradiava.
Voltei a cabeça devagar e pisquei um olho para a querida Cathy, agora minúscula em sua camisolinha de algodão, sentada meio encolhida sobre o grande balcão de mármore. Ela sentiu-se reconfortada com o meu sorriso, e suas mãozinhas ergueram-se como sonhos no ar, seus braços um laço suave de seda, transportando doces sonhos pela pele rosada dos braços de Kate, por sua cintura, a melodiosa voz um sussurro como o de um riacho, as consoantes como pedrinhas movendo-se aos poucos com a correnteza.
A chuva cessara, deixando o ar limpo como cristal polido. As filas de lâmpadas acesas entre as árvores acendiam e brilhavam à medida que eu as percebia, refletindo-se em centenas de gotículas amarelas, no chão, nas folhas e no ar.
A chegada do velho John, com a esposa e a filha, trouxe nosso mundo de volta. O velho John era um homem bom, mas era o que era: um homem. As lágrimas das mulheres eram, para ele, tão inexplicáveis como aquele orvalho lá fora: naturais, algo para merecer tanta atenção quanto o fato de chover hoje ou amanhã. As mulheres -- Ellena e a pequena Amy -- tinham todas os mesmos olhos assustados de Cathy.
Dain entrou na cozinha, com seus passos fortes e sua impressionante vitalidade, riu de Kate e das "pequenas lamentações" da esposa, acariciou-a levemente e levou os vizinhos para o pátio já quase seco, a fogueira agora iluminando sem fumaça, as alegres risadas do acordeon elevando-se com graça no ar cintilante que refletia as primeiras estrelas.
Capítulo I: A Cozinha
O milho derramava seu doce sabor amanteigado pelas frestas da tarde e Kate convidou-nos a jantar antes da chegada dos convivas. A pequena Cathy, ainda de camisola, encontrou rapidamente a sua espiga e acomodou-se sobre a grossa prancha de madeira escura que dava continuidade ao balcão de mármore da cozinha.Kate não estava para conversa. Criticou os modos de Cathy, que instantaneamente retraiu-se mas não largou o milho. Chamou minha atenção para o fato de que "essa forma inculta de usar a língua inglesa" era insultante na Inglaterra e que eu "não devia por o rosto dentro da panela" porque isso não era higiênico. Disse que, aliás, meus hábitos não eram muito saudáveis, já que minha toalha e a de Cathy ainda estavam, molhadas, largadas sobre a cama, e minhas calcinhas estavam expostas à execração pública, estendidas no varal no fundo do espaçoso quintal. Que tipo de mulher expunha despudoradamente sua intimidade daquela forma?
Eu quis argumentar que todo mundo estendia suas roupas nos quintais, já que queriam que elas secassem, e que eu não podia tirar o milho da panela sem olhar o que estava fazendo, mas isso só alimentou a fúria de Kate, que passou a admoestar-me, o rosto vermelho de raiva, uma mão na cintura delgada e forte, enquanto a outra descrevia arabescos de prata com o garfo no ar, a voz dançando uma coreografia cada vez mais perigosa, enquanto eu me assustava sem tirar os olhos das cintilações do garfo.
Desesperada de terror, saltei para adiante e a abracei, imobilizando o brilho da prata, e as nossas respirações se fundiram, seu coração apoiou-se no meu e Kate começou a chorar, e não sei o que ela dizia, mas mal tentava libertar-se do meu abraço de camponesa, a voz agora um fio de amargura e tristeza. Eu só conseguia dizer "nós não, Kate, nós amamos você, nós amamos você", e com cuidado trouxe sua cabeça para o meu colo, e naquele abrigo a menina saiu da prisão da mulher, e Kate derramou as lágrimas represadas de sua tristeza, lágrimas demais para seus poucos vinte anos. (continua)
Outra vida, circa 1757
Gilberto Gil fala na "Menina do Sonho", uma fada fadada a viver, com seu corpo no nada, o instante, o espaço, o abraço real da ilusão de existir.
Durante minha infância e adolescência, eu achava que a menina que eu amava era sempre a mesma, ora habitando um corpo, ora outro. Algo como se a essência do meu ideal de namorada fosse uma personalidade que vagasse pelo mundo, e eu tinha que ter a habilidade e a sutileza necessárias para reencontrá-la a cada migração (algo parecido com os monges tibetanos buscando as pessoas que seriam as sucessivas reencarnações de Buda). Existem vidas sucessivas? Vidas paralelas?
Outro dia acordei com uma lembrança tão viva na memória que só poderia tratar-se de um evento real. Descrevo-o como posso nos posts A Cozinha e Noite, neste blog. Esqueçam a forma literária. Esses escritos datam de muitos anos, quando a prosa de Clarice, repleta de vírgulas, me encantou pela primeira vez. Apreciem o relato.













